Les enfants du siècle - Diane Kurys - 1999

" You imitate passion, but you feel nothing."

Les enfants du siècle vive das suas personagens.
George Sand e Alfred de Musset personificam a loucura, a paixão irracional, a obsessão e o cinismo.
Memórias: a força e o absurdo da paixão.
Não é excepcional, mas tem força suficiente para me aproximar do abismo em que as personagens escolheram viver.

Copie Conforme - Abbas Kiarostami - 2010

"I didn't mean to sound so cynical, but when I saw all their hopes and dreams in their eyes, I just couldn't support their illusion."

Kiarostami sai do seu ambiente e não consegue manter a sua singularidade.
Copie Conforme não deixa de ser um belíssimo ensaio de uma reavaliação de uma relação, mas falta-lhe originalidade.
Memórias: Brinco, Binoche
Espero que a saída de Kiarostami do Irão ainda traga boas surpresas.

O Brother, Where Art Thou? - Coen - 2000

"A woman is the most fiendish instrument of torture ever devised to bedevil the days of man."

Falta-lhe alguma consistência e audácia na construção do argumento, no entanto é um dos mais brilhantes trabalhos dos Coen em termos estéticos.
Recheado de gags fabulosos, prefeito nas analogias à Odisseia de Homero e na memória dos tempos da Grande Depressão.
Memórias: feno, banda sonora
Longe da grandeza de outros Coen mas consegue ser dos meus preferidos.

The Apartment - Billy Wilder - 1960

"When you're in love with a married man, you shouldn't wear mascara."

The Apartment não é uma comédia romântica, Miss Kubelik é apenas um elemento de um subplot, o que é relevante é a a afirmação do carácter de Baxter e a sátira às relações interpessoais nas grandes corporações.
Por esta razões Billy Wilder conseguiu uma comédia intemporal.
Memórias: Cena da chave, falsas indicações de Miss Kubelik
A comédia não tem muito a ganhar com cinema, penso que a televisão de ajusta mais ao género.

Rosetta - Dardenne - 1999

"Votre nom est Rosetta. Mon nom est Rosetta. Vous avez trouvé un travail. J'ai trouvé un travail. Vous avez un ami. J'ai un ami. Vous avez une vie normale. J'ai une vie normale. Vous ne tomberez pas dans une ornière. Je ne tomberai pas dans une ornière. Bonne nuit. Bonne nuit."

A cena repetida da troca de sapatos mostra a Rosetta perpectuamente em missão, resiliente.
Memórias: A tentativa de suicídio, a cena dos waffles: primeiro o olhar, depois a voz, e só depois Riquet.
O melhor momento dos irmãos Dardenne.
Nunca as minhas lágrimas se justificaram numa sala de cinema como em Rosetta.

Le gamin au vélo - Dardenne - 2011

"C'est pas grave"

Cinema de intervenção social. Os irmãos Dardenne representam o melhor neo-realismo europeu da actualidade.
Memórias: homenagem a Ladri di biciclette, colheres, cabeçadas
Didáctico mas acrescenta muito pouco em relação aos trabalhos anteriores.

Os Amigos de Alex - Lawrence Kasdan - 1983


- So how's your life?
- Oh, great. How's yours?
- Not so great.
- Ohhh, we're telling the truth.

Mais do que um filme, uma interrogação ao valor da amizade, uma viagem aos infinitos destinos que podemos traçar, uma demonstração da erosão que o tempo provoca no valor das memórias.
Memórias: A ilusão de que Alex não era meu amigo
The Big Chill? Não, eu sou amigo do Alex.

Gran Torino - Clint Eastwood - 2008

" I've been called a lot of things, but never funny."

Em certa medida Eastwood faz um auto-retrato de si próprio enquanto realizador.
Memórias: final, a forte presença de Clint à frente da câmara
O melhor de Clint Eastwood.

The New World - Terrence Malick - 2005

" There's something I know when I'm with you that I forget when I'm away."

A beleza de The New World permite-nos desfrutar todas a faculdades de Malick, expostas na beleza das imagens e das palavras.
Memórias: luz, Anel do Nibelungo
No final, uma sensação de vazio, a história de Pocahontas não tem substância para tanto cinema.

The Tree of Life - Terrence Malick - 2011

"Your mother's naive. It takes fierce will to get ahead in this world. If you're good, people take advantage of you."

Malick leva o cinema aos seus limites, tentando expor todo o filme através do som e das imagens, levemente enquadradas com a narração quase poética.
Continuo a considerar que falha na sua tentativa de se assumir como realizador filosofo, torna a sua obra demasiado pretensiosa, e estéreis as as sensações que produz.
Apesar de tudo Malick consegue produzir memórias duradouras e tem uma influencia enorme na minha visão do cinema. Em The Tree of Life há muito para rever, e talvez então até possa vir a considerá-lo o melhor de Malick.
Memórias: A relação de Mr. O'Brian com os filhos, sequência do Big Bang
Ainda espero a obra prima de Malick, basta-lhe moderar um pouco a ambição e conseguirá certamente descobrir algo profundo no aparente trivial das nossas vidas.

Mystic River - Clint Eastwood - 2003

" Is that my daughter in there?"

Não sendo apreciador do cinema de Eastwood, nem de thrillers em particular, talvez Mystic River estivesse desde logo condenado. Tenho dificuldade em emocionar-me com thrillers, já perdi a curiosidade de saber o final. Interessa-me a viagem e Mystic River não perde tempo com detalhes.
Memórias: Os subplots poderiam ser interessantes, mas não são devidamente explorados.
Compreendo quem gosta, mas Mystic River esgotou-se em mim assim que
acabou.

Apocalypse Now - Francis Ford Coppola - 1979

“I love the smell of napalm in the morning”

Em criança a guerra parecia algo de natural, como a religião, ou a Agatha Christie.
A guerra existia, o meu pai esteve numa, eu também iria pegar numa arma, queria ser como um daqueles soldados heróis que via nos filmes. Obrigado Francis!
Memórias: The End!!
A guerra vista pelo único ângulo possível, o da loucura.

Midnight in Paris - Woody Allen - 2011

"I'm from the '20s, and I'm telling you the golden age is la Belle Epoque."

Woody Allen não necessita de se esforçar muito, qualquer amostra do universo que criou me satisfaz.
Agradeço a viagem no tempo.
Memórias: Dali, Hemingway,...
Paris foi a melhor paragem desde que deixou Manhattan.

The Bridges of Madison County - Clint Eastwood - 1995

"This kind of certainty comes but once in a lifetime. "

Já não há romance no cinema, agora são comédias românticas. Qualquer história de amor puro ou incondicional parece inverosímil, a não ser que se passe no século XIX, ou, por exemplo, entre um casal de entradote, que cresceu a ver o Casablanca.
Memórias: saia, chuva
O melhor de Clint Eastwood, antes de Gran Torino.

Psycho - Alfred Hitchcock - 1960

"A boy's best friend is his mother."

Mesmo conhecendo todos os detalhes, e já não havendo surpresas, Psycho continua a deixar-me a pensar nele vários dias depois.
Memórias: Bernard Herrmann, duche, casa, troca de protagonista
Em Hitch prefiro Vertigo, em terror prefiro The Shining, mas Psycho é Psycho.

Ryan's Daughter - David Lean - 1970

" Don't nurse your dreams, Rosy. You can't help having them, but don't nurse them. Because if you nurse your dreams, they tend to come true."

Vi numa sala de cinema, era novinho e nunca mais consegui esquecer Ryan's Daughter.
Reconheço-lhe alguns pecados, mas a fotografia excepcional e o extremismo dos acontecimentos combinam na perfeição.
Memórias: Praia, Pegadas, Charles
O meu preferido de David Lean.

Cidade de Deus - Fernando Meirelles - 2002

"Na Cidade de Deus se ficar o bicho pega, se correr, o bicho morde!"

Entre o documentário e a ficção. Brutal.
Um Goodefellas e um Godfather em português.
Memórias: Poucas vezes no cinema tive esta sensação de que o que estava a ver não era ficção.
Neo-realismo brasileiro. Uma das maiores surpresas da década.

Ladri di Biciclette - Vittorio de Sica - 1948

"Why should I kill myself worrying when I'll end up just as dead?"

A história da degradação do carácter vista pelos olhos de um filho.
Dois enredos cruzados, o homem e a bicicleta, o filho e o pai, genial.
O ritmo e os detalhes ajustam-se à angustia, sentimento que assombra todo o filme.
Memórias: Bruno e os carros, Itália
A obra-prima do neo-realismo italiano.

Rebecca - Alfred Hitchcock - 1940

" Happiness is something I know nothing about."

A simples presença de Mrs. Danvers é aterradora, quase não se mexe, as mãos recolhidas, ausência de expressão facial.
Memórias: Manderley assemelha-se a uma prisão gótica, sombras, nevoeiro.
Um dos melhores do mestre, excelente argumento, apenas lhe falta a rebeldia.

La double vie de Véronique - Kieslowski - 1991

" - What else do you want to know about me?
- Everything. "

Uma extraordinária colecção de imagens, ambiguidades e sensações. 

Obrigado, Mestre!
Memórias: Espelhos, glass ball, Irene Jacob, côr.
Por vezes parece um ensaio para as Trois Coleurs, que prefiro, mas continua a ser um dos mais belos filmes de sempre.

La piel que habito - Pedro Almodovar - 2011

" Soy Vincente."

O primeiro filme de terror de Almodovar, visto assim, gosto mais.
Um homem preso na pele de uma mulher, assustador, e provocador.
O realizador parece no entanto pouco confortável, menos instintivo, a querer fugir do seu próprio padrão, com uma frieza pouco habitual nele.
Memórias: claustrofobia!!
Sendo um adepto de Almodôvar suponho que me tenha sentido um pouco perdido, até porque sinto algum amadurecimento do filme com o passar das semanas.

2001: A Space Odyssey - Stanley Kubrick - 1968

" It can only be attributable to human error."

Sci-Fi nerds vêem simbolismo em tudo, teorias fantásticas.... mas 2001 já passou, e é só um filme.
Ainda é difícil acreditar que estávamos em 1968 (um ano antes da Apollo 11), pela qualidade do universo e das imagens criadas. É um daqueles filmes que parece inevitável na história do século XX.
O HAL, a banda sonora, o branco, o vazio, o monólito... a composição é perfeita.
Memórias: Zarathrustras, Requiem Ligeti
É um grandioso filme, mas não é a minha praia.

Breaking the waves - Lars von Trier - 1996

"Let me die. I'm evil in head!"

Talvez seja o mais equilibrado Lars von Trier, mas nem por isso é mais consensual.
A personalidade de Lars não lhe permite contar uma história de amor sem a levar ao limite da loucura e do absurdo. E o amor, não é isso mesmo?
Memórias: Ondas a bater nas rochas, o desespero de Bess, igreja.
Apesar de marcante, não é o meu preferido na obra de Lars von Trier, ou talvez simplesmente ainda não conhecesse suficientemente bem o seu universo retorcido.

Crimes and Misdemeanors - Woody Allen -1989

"If you want a happy ending, you should go see a Hollywood movie."

Dostoyevsky revisitado. Com o subplot no universo habitual, a face lunar de Woody parece mais genuína do que em Match Point e Cassandra's Dream.
Memórias: Diálogo final, Martin Landau
Fundamental para unificar a obra de Woody Allen.

The Cook, The Thief, His Wife and Her Lover - Peter Greenaway - 1989

" Bon apetit.
It's French..."

O cinema de Greenaway cruza-se com a pintura, a música de Michael Nyman e com Jean Paul Gaultier, numa cinematografia brilhante e arrojada.
Argumento bizarro, repleto de turning points, sem localização temporal definida, absurdo, perfeito.
Memórias: Naturezas mortas, sala de jantar, cozinha, Michael Nyman
Abertura fenomenal para o cinema de Peter Greenaway.

Dancer in the Dark - Lars von Trier - 2000

"There's no more to see..."

Talvez por ser um musical não consigo sentir empatia por Dancer in the Dark, ou talvez ainda não tivesse suficiente intimidade com Lars von Trier. 

Não gostei.
Memórias: Óculos
Aventureiro, argumento poderoso, mas demasiado uni-dimensional.

Melancholia - Lars Von Trier - 2011

" This is the end, and it taste like ashes "

Um filme sobre o fim do mundo? Não. Um filme sobre como encaramos a vida e a morte.
Memórias: Tristão e Isolda, Jardim, Hole 19
O cinema de Lars von Trier está cada vez mais negro, e cada vez melhor.

Antichrist - Lars von Trier - 2009


"My grief pattern is atypical"

Argumento e cinematografia brilhantes.
Um filme de terror chocante, brutal, torturante, demente.
Memórias: Sapatos, abertura ao som de Handel
Lars von Trier fez um filme brilhante, mas quis chocar a audiência mais do que o necessário.
Não havia necessidade.O homem não anda bem.

Dogville - Lars von Trier - 2003

"I think the world would be better without Dogville."

O ensaio ideológico e formal de Lars von Trier é ousado, artificial, extremo, moralista, anti-americano.
Lembra o teatro experimental de Brecth.
Memórias: Giz, cão imaginário, estoicismo e vingança.
Consagra ao realizador como o enfant terrible do cinema europeu.

How green was my valley - John Ford - 1941

" Men like my father cannot die. "

Não é justo escrever sobre How green was my valley antes de Citizen Kane, já bastava a estória do Oscar.
O sentimentalismo fácil, o conservadorismo na forma e nos valores e outros tantos defeitos não apagam a emoção de pensarmos que o Bem e o Mal são facilmente distinguíveis.
Memórias: Homens a descer rua
John Ford não é certamente uma referência para mim, mas relembra-me a pureza e inocência da minha infância como poucos.

Eyes Wide Shut - Stanley Kubrick - 1999

" - Umm, I think that's my glass.
- I'm absolutely certain of it. "

Sexo, alucinações, fantasia, verdade.
O último trabalho de Kubrick continua a ser o mais enigmático.
Impressionante a variedade de género e temática da sua obra.
Memórias: Ligeti, máscaras, Ziegler's party
A desilusão inicial certamente desaparecerá quando rever.
Os mestres não se enganam.

The Big Lebowski - Coen - 1998

" That rug really tied the room together."

Sempre gostei do humor dos irmãos Coen no entanto, sendo a história do Dude uma sátira a personagens tipicamente americanas, é natural algum distanciamento da minha parte.
Memórias: diálogos, Dude, John Goodman, the rug
The Big Lebowski é muito bom, mas é um pouco estranho a forma como se tornou um filme de culto, ou talvez não, suponho que os Dudes gostem de se verem a si próprios no grande écran.

Trois Couleurs: Rouge - Kieslowski - 1994


Rouge: Fraternidade
"Perhaps you're the woman I never met."



Quando penso em cinema Rouge surge inevitavelmente. Ao contrário de Annie Hall, ou Casablanca, sinto-me geracionalmente próximo. Consegue mexer emocionalmente comigo mais do que Naked, pela temática, e pelo cinema que é bastante Maior.
Memórias: Os cruzamentos entre a fraternidade e a justiça, sem nunca se encontrarem, a Rita vai à igreja, os olhares de Anne Jacob. Para acabar, uma lágrima de felicidade.

Trois Couleurs: Blanc - Kieslowski – 1993



Blanc: Igualidade
"Are you sure?"















Reconhecida e justificadamente o filme menor da trilogia. 
Não é demérito, Branco simplesmente é uma côr diferente, mas também brilhante.
Memórias: O trajecto humilhante de Karol Karol, a liberdade ficou à porta
O afecto gera igualdade.

Trois Couleurs: Bleu - Kieslowski - 1993

Quando revejo a trilogia de Kieslowski sinto-me tentado a nomeá-la como obra maior da história do cinema.O sentido poético, o sentido rítmico, a cinematografia apoiada nas cores, a câmara associada aos sentimentos, a simplicidade e profundidade das personagens, a forma como se entrelaçam os filmes, está lá tudo o que gosto em cinema. 

A doçura de Kieslowski derrete-se lentamente na alma.
Expoente máximo do cinema enquanto arte. Liberta o cinema da literatura, da fotografia, também não os exclui nem reduz a obra a exercícios de estilo. Não necessita de ser abstracto para ser profundo.
Equilíbrio, simplicidade e génio.


Bleu: Liberdade

"Why are you crying? Because you're not"


 














Bleu é um documentário, uma viagem ao interior de uma alma em luto, uma viagem às sua escolhas, à sua definição do essencial.
Memórias: Pautas, tela negra, a aparente frieza de Binoche
A intensidade de Bleu não se explica, é essa a sua magia.

La Passion de Jeanne d'Arc - Carl Theodor Dreyer - 1928

"Nineteen... I think."

Parece demasiado crú mas a memória mostra a força indescritível deste filme.
As faces em close-up lembram Potemkin.
Memórias: A face de Falconetti, planos invertidos
La Passion regista apenas a face de Falconetti, e é suficiente para perdurar no nosso imaginário.