King Kong - Merian C. Cooper, Ernest B. Schoedsack - 1933

"Hey, look out, it's Kong! Kong's comin'!"


Lembro-me bem da excitação quando soube que ia finalmente ver o King Kong.
Era muito jovem e não fiquei desiludido.
Memórias: gritos, The Empire State Building
Perdida a inocência resta apenas dizer que foi aqui que começou muito do cinema de pipoca dos dias de hoje.

The Freshman - Harold Lloyd - 1925


Marca o inicio das comédias de adolescentes.
Memórias: nota, fotografia, espelho!!
Safety Last é uma excepção, Lloyd não está à altura de Chaplin, Keaton ou Groucho Marx.

Un Chien Andalou - Luis Buñuel - 1929


Um acto de loucura de Buñuel e de... Dali!
Memórias: eu também sonho
David Lynch nasce aqui.

The Most Dangerous Game - Irving Pichel, Ernest B. Schoedsack - 1932

"Don't worry. The Count will take care of me."

Clássico da serie B.
Desperta-me memórias longínquas. 

Quando vi pela primeira vez a ficção e a realidade ainda não eram coisas distintas.
Memórias: build by the portugueses
Um dos primeiros Horror Talkies a merecer destaque.

The Curious Case of Benjamin Button - David Fincher - 2008

"It's a funny thing about comin' home. Looks the same, smells the same, feels the same. You'll realize what's changed is you."

Fincher é certamente apaixonado por cinema. 

Embora ceda por vezes ao exagero, tem belíssimas imagens.
O filme assenta numa boa ideia que explora com competência, embora não consiga extrapolar para além da fantasia.
Memórias: a dança de Daisy, conversa de café, barco
Cor de rosa, mas um dos melhores de Fincher.

La règle du Jeu - Jean Renoir - 1939

"You have to understand, its the plight of all heroes today. In the air, they're terrific. But when they come back to earth, they're weak, poor, and helpless."

Quem não segue as regras está condenado, lamentavelmente La Règle du Jeu continua actual.

Admirável conjunto de frases que demonstram a experiência de vida de quem as escreveu.  

Lembra um Dolce Vita mais complexo, onde quem julga as personagens somos nós.
Jean Renoir poderia ter sido um excelente actor.
Memórias: Hipocrisia, luxúria, as falsas amizades
Obra intemporal de Renoir.

The Last Laugh - Friedrich W.Murnau - 1924


Uma história de humilhação, onde o final feliz não faz sentido. 
Hoje dir-se-ia que tinha sido feito para dar um oscar a Emil Jannings.
Murnau filma com a qualidade de sempre.
Memórias: Imagens desfocada, sombras, câmara oscilante
Não resistiu bem ao tempo embora seja admirável a pureza enquanto filme mudo, sem necessidade de texto escrito.

The Last Temptation of Christ - Martin Scorsese - 1988

- What was it like? Which is better: Death, or life?
- I was a little surprised... wasn't that much difference.

Foi o meu primeiro Scorsese, as primeiras imagens, o planos, o movimento de câmara, apaixonaram-me.
Só mais tarde descobria que o seu universo são os bares, os táxis, as ruas sujas de Nova Iorque. Raramente a luz e os grandes espaços aparecem na obra de Scorsese.
Memórias: A câmara de Scorsese
Para um ateu a dualidade Homem/Deus de Jesus não é cativante, continuo no entanto a delirar com a tentação das imagens criadas pela câmara de Scorsese.

The Grapes of Wrath - John Ford - 1940

"You and me got sense. Them Okies got no sense and no feeling. They ain't human. Human being wouldn't live the way they do. Human being couldn't stand to be so miserable."

Vi As Vinhas da Ira muito novo, senti a tristeza, o desespero e a miséria de forma profunda.
Ford capta de forma crua e expressividade dos actores, reduz o cinema ao estritamente necessário para deixar respirar a força do romance de Steinbeck
A história da Grande Depressão, sempre actual, explica que a dor de perder as terras, a casa ou o emprego, ou a vida é menor que a dor de perder o respeito por nós próprios.
Memórias: fotografia a preto e branco, Dust Bowl
O poder de The Gapes of Wrath não está no cinema mas sim na dimensão das forças que presenciamos.

Rio Bravo - Howard Hawks - 1959

- I thought you were never going to say it.
- Say what?
- That you love me.
- I said I'd arrest you. 

- It means the same thing, you know that.

O heroísmo romântico de Roy Rodgers tem um lugar especial nas minhas memórias de infância, mas entretanto descobri que nem eu nem o universo somos prefeitos. Deixei à muito de me identificar com os pressupostos dos westerns.
Rio Bravo fala do companheirismo masculino, das forças e fraquezas dos homens, e embora a misoginia não seja louvável, não é possível ser indiferente à força inspiradora de Rio Bravo.
Memórias: John Wayne, Mexican Death Song
Hawks dá-nos coragem para enfrentar a vida. O melhor western.

Carrie - Brian de Palma - 1976

"They're all gonna laugh at you."

Um filme de terror que por vezes parece banal quase escondendo as capacidades de Brian de Palma.
No entanto, a história de Stephen King e a personagem de Carrie permitem a De Palma criar um clássico do género, com mais qualidade que o habitual.
Memórias: The Prom, a mãe
Gosto mais de De Palma quando imita Hitchcock.

Dressed to Kill - Brian de Palma - 1980

- ...and I'm married.
- Fucked a lot of them, too.

Hitchcock não ficaria envergonhado. Brian de Palma não esconde a inspiração com duas cenas a lembrar o duche de Psycho. 

de Palma acrescenta maior conotação sexual mas a câmara cria suspense da mesma forma que o mestre.
Memórias: travelling à saída do museu (apesar da repetição), elevador, flirting no museu
O melhor de Brian de Palma?

The Conversation - Francis Ford Coppola - 1974

"I'm not afraid of death, but I am afraid of murder."

The Conversation é um objecto estranho, um estudo de uma personagem mascarado de thriller.
Harry, supostamente um génio na sua profissão, é ridiculamente ingénuo quando se tenta proteger a si próprio.  

Um homem atormentado, desligado da vida, sem destino.
Memórias: música, solidão
The Godfather e Apocalypse Now são fenomenais, mas são excepções à mediania dos outros trabalhos de Coppola. The Conversation é talvez o filme mais pessoal do autor e o que mais se aproxima das suas obras-primas.

Vicky Cristina Barcelona - Woody Allen - 2008

- Yeah, who exactly is going to make love?
- Hopefully, the three of us.

Woody e Barcelona não combinam. Scarlett a tirar fotografias no bairro gótico é um dos piores momentos de toda a obra de Woddy Allen.
Fica a sensação de que a ideia de explorar uma relação a três poderia ter muito melhor resultado, mas ainda assim sobram vários momentos verdadeiramente deliciosos
Memórias: Audácia de Juan Antonio, acabar com uma relação a três
Apesar da sensação de que Allen se transformou num turista os diálogos continuam a encher o écran, ajudados por um elenco excepcional, como sempre acontece com Woody Allen.

Delicatessen - Jean-Pierre Jeunet, Marc Caro - 1991

"Tiens boucher, ça c’est un travail pour l’australien."

Visualmente extraordinário.
Comédia sem grande texto, mas com excelentes personagens e um universo fantástico criado por Jeunet e Caro.
Memórias: créditos iniciais, sinfonia das molas, bolas de sabão
Bizarro, grotesco, a descoberta de Jeunet e Caro não poderia ser melhor.

Shutter Island - Martin Scorsese - 2010

"Why are you all wet, baby?"

Scorsese a tentar fazer de Hitchcock.
O final é bom, mas tudo parece demasiado estéril para um realizador com as capacidades de Scorsese.
Memórias: Quem está louco? Somos nós, ou o mundo à nossa volta.
Lamenta-se a insistência em DiCaprio que não consegue dar complexidade às personagens.

Duel - Steven Spielberg - 1971

"Fear is the driving force"

Suspense à Hitchcok e muita naturalidade atrás da câmara.

Spielberg ainda não tinha cedido não sentimentalismo fácil e aos caprichos das audiências.
Memórias: There's no way out
Não sou admirador de Spielberg, mas em Duel adivinha-se a sua brilhante carreira.

E.T. The Extra-Terrestrial - Steven Spielberg - 1982

"E.T. phone home."

A descoberta da magia de Spielberg.
Está um pouco datado, contrariamente à maioria da obra de Spielberg, mas isso deve-se inúmeros remakes que a sua popularidade gerou.
Memórias: lua, dedo, sonho
Spielberg só consegue apelar à criança dentro de mim. E não é bom?

After Hours - Marin Scorsese - 1985

- Why don't you just go home?
- Pal, I've been asking myself that all night.

Nova Iorque apresentada como a nova Babilonia.
A criatividade de Scorsese não está na escrita e poucos são os seus filmes em que o argumento tem relevância. After Hours tem um excelente argumento e permite a Scorsese expor todo o seu talento.
Memórias: Kafkiano
Um dos meus preferidos de Scorsese.

The Artist - Michel Hazanavicius - 2011

"With pleasure."

Homenagem ao cinema mudo, tentando recrear a expressividade que resultava da ausência de texto.
Ousar prescindir da muleta do texto é admirável e realça o trabalho dos actores.
Memórias: abraço do casaco, som do copo, fuga da sombra, olhar no German Affair, Uggie
The Artist não penetra na nossa intimidade, não tem essa ambição, mas para quem como eu gosta de cinema mudo é uma belíssima forma de reavivar a memória.

12 Angry Men - Sidney Lumet -1957

- Bright? He's a common ignorant slob. He don't even speak good English.
- He doesn't even speak good English.

É sempre arrojado tentar fazer um filme dentro de apenas quatro paredes, mas com 12 extraordinários actores representando 12 grandes personagens e uma infinidade de detalhes nas palavras e nos gestos não há um único momento de tédio.

Memórias: Not Guilty!
Um filme para rever diversas vezes, rever cada personagem, cada gesto, cada olhar. Um universo de detalhes e todo o mundo fechado numa sala.

Artificial Intelligence: AI - Steven Spielberg - 2001

Mommy... I'm sorry I broke myself.

O Amor que não morre.
O sentimentalismo é apropriado, embora a ambição metafisica de Kubrick pudesse tornar o filme em algo único. AI tem a face de Spielberg, e pouco da fria inteligência de Kubrick.
Memórias: fada azul, Nova Iorque submergida
É impossível não pensar neste filme como justaposição da visão de Spielberg e de Kubrick, mas na sala de cinema o que contam são as emoções, e elas são muitas em AI.

Gangs of New York - Martin Scorsese - 2002

"That's what preserves the order of things. Fear."

Scorsese sem chama mas com Daniel Day-Lewis em grande forma.
Um Goodfellas do passado, mas apenas na temática, falta tudo o resto.
Memórias: Daniel Day-Lewis Shakesperiano
Nada acrescenta à obra de Scorsese, mas The Butcher preenche o filme.

Hannah and her sisters - Woody Allen - 1986

- I don't know. Excessive masturbation?
- You gonna start knockin' my hobbies? 

 



 
















De Allen esperamos sempre uma comédia, Hannah and her sisters é um drama, com espaço para o humor.
Apresenta um argumento complexo, recheado de personagens e subplots, tornando admirável a consistência alcançada em todo o filme.
Memórias: poema, personagens
Não considero um dos melhores de Woody Allen, mas raramente as suas capacidades foram tão explicitas como aqui.

The Sweet Hereafter - Atom Egoyan - 1997

- I can help you.
- Not unless you can raise the dead

O tema é difícil. A atmosfera asfixiante, típica de Atom Egoyan, é apropriada à falta de esperança e falta de significado da vida das personagens.
Memórias: Frio, luz, tristeza, banda sonora e beleza das imagens
Apesar de muitos méritos não consigo gostar de The Sweet Hereafter, não consigo fazer o luto da tragédia.

The General - Buster Keaton - 1926


O meu preferido de Buster Keaton continua a ser Sherlock Jr., em The General a dimensão cómica é menor, perdendo protagonismo para a acção.
Memórias: Locomotivas, contar os grãos de pólvora
Realizar algo como The General sem efeitos especiais deve ter sido uma enorme aventura.

La reine Margot - Patrice Chereau - 1994

"Marguerite de Valois, do you take... In the name of God, and His Holy Church, I join you in matrimony."

Sensualidade e violência. Um rei corno, tudo bem. Mas corno e manso?

Margot consegue ser uma das mais bem conseguidas aproximações do cinema francês ao mainstream.
Memórias: Mafra, Isabelle Adjani, primeiro encontro entre Margot e La Mole
Chéreau não é muito interessante mas é um mestre a filmar conteúdo sexual.

Sweeney Todd - Tim Burton - 2007

"I can guarantee the closest shave you'll ever know."
Tim Burton é um realizador meramente visual. Gótico e bizarro, por vezes colorido, mas sempre negro.
Sweeney Todd não impressiona como musical, a imagem sobrepõem-se à música e ao enredo.
Memórias: A estética de Mrs. Lovett e Todd

Gosto bastante de Tim Burton e Sweeney Todd é um dos seus melhores trabalhos.

eXistenZ - David Cronenberg - 1999

- Your real life. The one you came back for.
- It feels completely unreal.

Não sou fã de Cronenberg, eXistenZ também não é o seu melhor, mas quando muito cinema se começa a confundir com os videojogos é bom relembrar as perguntas que aqui se fazem. 
Pena que muitos acabem a questionarem-se: Quando haverá um jogo assim?
Memórias: realidade/ficção, imagens repugnantes
Contemporâneo de Matrix, eXistenZ vai muito mais longe.