Bitter Moon - Roman Polanski - 1992

- What happened to your dance classes?
- Dancing has to come from the heart.
- So?
- My heart is broken.



A essência do filme não está nos flashbacks mas sim na personagem de Hugh Grant. Nigel, como nós, é manipulado de forma sádica mas subtil. O sotaque exageradamente britânico mostra a diferença entre quem ele julga ser e os seus instintos.
Do beijo na mão à dança lésbica ao som de Slave to Love, os twists and turns são fenomenais e apesar de um pouco artificiais muitas frases permanecem na memória... ligadas a eventos um pouco diferentes do filme.

. I might have been Adam with the taste of apple fresh in my mouth. 
. I leave you to your magnetic, irresistible personality.
. I'd been granted a glimpse of heaven, then dumped on the sidewalk.
. Even a criminal is told his crime.
. In the eyes of every woman, I could see the reflection of the next.

É verdade que Polanski comete alguns excessos, mas continuo a gostar muito de Bitter Moon.
Eternity for me began....

Out of the Blue - Dennis Hopper - 1980

Subvert normality. Punk is not sexual, it's just aggression. Destroy. Kill All Hippies. I'm not talking at you, I'm talking to you. Anarchy. Disco sucks. I don't wanna hear about you, I wanna hear from you.



O neorealismo no final dos anos 70.
Como canta Neil Young: Out of the blue...and into the black.
Dennis Hopper filma o que teria sido a vida das personagens de Easy Rider se tivessem tido a oportunidade de envelhecer.
It's better to burn out... than to fade away.

Easy Rider - Dennis Hopper - 1969

Hey, man. All we represent to them, man, is somebody who needs a haircut.



O filme que resume a América no final dos anos 60.
No ano de Woodstock Dennis Hopper e Peter Fonda fazem um Western em duas rodas, inspirados pela marijuana anunciam o fim da era hippie em conflito com a América profunda.
Um dos precursores do New Hollywood, um dos primeiros filmes em que as canções são utilizadas na forma actual, Easy Rider é mais que um filme, é um marco cultural.

Naked Lunch - David Cronenberg - 1991

I guess it's about time for our William Tell routine.



A Beat Generation foi uma manifestação da evolução cultural da América no final dos anos 50 e inspirou futuras gerações, nomeadamente os hippies dos anos 60.
Além do impacto na literatura, o uso de drogas e os movimentos gay por exemplo, são causas e consequências da vida e obra desta geração.
William S. Burroughs foi um dos membros fundamentais da Beat Genaration e a sua escrita confunde-se com a sua vida. Cronenberg funde a obra e o autor num argumento complexo mas bem trabalhado.
Memórias:o falso movimento dos lábios.
O filme não é fascinante mas consegue captar a essência de Naked Lunch.

The Fly - David Cronenberg - 1986

I'm saying... I'll hurt you if you stay.



The Fly, um remake de um filme de 1958, ainda tinha algum encanto em 1986 mas 30 anos depois não tem qualquer interesse.
Cronenberg é mestre do Body Horror, coisa que não gosto.

The Truman Show - Peter Weir - 1998

We accept the reality of the world with which we're presented. It's as simple as that.



Antes da explosão dos Reality Shows, The Truman Show profetiza o futuro da televisão.
O conceito fazia todo o sentido, surgiu no momento certo, e a concretização da ideia foi bem conseguida.
Está datado porque o filme nada acrescenta ao conceito inicial e porque a realidade seguiu o seu caminho.

Witness - Peter Weir - 1985

You be careful out among them English.



Um thriller banal e previsível que utiliza a comunidade Amish como adereço.
Peter Weir é competente na banalidade.

Queen Christina - Rouben Mamoulian - 1933

In the future, in my memory, I shall live a great deal in this room.



A rainha Cristina da Suécia foi uma personagem muito interessante, mas infelizmente é apenas um pretexto para este filme.
A masculinidade e eventual homossexualidade da rainha, os verdadeiros motivos da abdicação ou as traições da vocação poderiam ser motivos para bons argumentos, mas aqui Cristina é apenas uma rainha apaixonada.
Greta Garbo é a actriz ideal para a personagem pelo seu misto de dureza e sensualidade, de força e doçura.
Apesar do vento soprar ao contrário a imagem de Garbo na proa do navio deve ter inspirado James Cameron. 
Este Queen Christina não deixa saudades.

Don’t Look Now - Nicolas Roeg - 1973

This one who's blind. She's the one that can see.


A montagem é a principal arte de Nicolas Roeg, Don’t Look Now é um excelente exercício da gramática do cinema.
A sequência inicial do afogamento mostra talento, apesar de algum exagero estilístico.
A cena de sexo, intercalada com os preparativos para o jantar que se seguia, absolutamente genial.
Não gosto especialmente do filme, mas gosto das ruas sombrias de Veneza, dos truques do realizador e da ambiência que Roeg conseguiu criar.
Julie Christie belíssima como sempre.

Walkabout - Nicolas Roeg - 1971

I don't suppose it matters which way we go.







O outback australiano é propício a excelentes imagens mas Walkabout é um filme inquietante.
Nicolas Roeg parece querer contrapor a beleza com o horrendo, um mundo idílico com a crueldade da vida na natureza.
A seuência final com a rapariga já adulta deixa a ideia que, apesar de tudo, aquela viagem foi o momento mais feliz da sua existência.
Ficam imagens e sensações fortes juntamente com alguma repulsa e insatisfação.
Inquietante e inconsistente.

Kind Hearts and Coronets - Robert Hamer - 1949

You’re a very lucky man, Lionel.
Take my word for it.



Alec Guiness, e as suas oito personagens, são o maior destaque de Kind Hearts.
O humor mórbido e a ironia complementam aquela que será eventualmente a melhor comédia do cinema britânico.

Dead of Night - Robert Hamer, Alberto Cavalcanti, Basil Dearden, Charles Crichton - 1945

Just room for one inside, sir.



Os filmes de terror foram proibidos durante a guerra mas valeu a pena esperar por Dead of Night.
Antologia de terror com alguma comédia, vários realizadores e um fantástico final em loop.
O melhor do género em terras britânicas, onde nem falta o habitual par de golfistas.

The Fallen Idol - Carol Reed - 1948

Shall I tell you a secret?



Carol Reed transforma uma short story de Graham Greene num filme simples mas exemplar nos detalhes.
O suspense lembra Hitchcock mas é sobretudo um filme sobre a dificuldade duma criança em comunicar com o mundo dos adultos.

Of Time and the City - Terence Davies - 2008

ls it sleep?
Or is it death?



Homenagem de Davies à sua cidade de Liverpool.
Lembra um cruzamento dos filmes de Humphrey Jennings com a poesia nostalgica de My Winnipeg de Guy Maddin
Fabulosa a voz da narração do próprio realizador.

The Long Day Closes - Terence Davies - 1992

If you shine a torch into the night sky, the light goes on for ever.





Belíssimo exercício de nostalgia.
O tempo, a memória e a infância são a essência do cinema de Davies.
Memórias: o convivio com os vizinhos.
O apurado sentido estético do realizador tem aqui o melhor exemplo.

Distant Voices, Still Lives - Terence Davies - 1988

I don't feel any different.



Terence Davies cria o seu universo autobiográfico em dois segmentos sobre uma família da classe trabalhadora nos anos 50 em Liverpool.
A religião, o cinema e a cultura popular contextualizam sua infância.
Davies tem uma forte identidade na forma e na temática.
Embora não sinta muita empatia com o seu cinema gosto do seu sentido estético e da forma como aborda o neo-realismo na primeira pessoa.

The Queen - Stephen Frears - 2006

Your tea is getting cold!



A falta de simpatia com o tema não ajuda a tentar encontrar méritos em The Queen para além do trabalho de Helen Mirren.
Stephen Frears é demasiado conservador e não acrescenta valor.

Dangerous Liaisons - Stephen Frears - 1988

l am as unhappy as you could ever have wanted me to be.



Stephen Frears gere bem a qualidade do argumento e dos actores.
Dangerous Liaisons é exemplar na representação da crueldade, da vaidade ou da inveja mas superficial na tragédia, no sofrimento e no amor.
Memórias: os sorrisos de Marquise de Merteuil
...l think we might begin...with one or two Latin terms.

Life is Sweet - Mike Leigh - 1990

...far as I'm concerned, football died, the day Arsenal won the double.



Sem argumento formal, o filme vive muito do improviso e do trabalho dos actores, antes e durante a rodagem.
Mike Leigh vê o trabalho de realizador como o de maestro de uma orquestra e consegue capturar como ninguém a working class britânica.
Não gosto muito, mas é aqui que Mike Leigh melhor se expressa e de onde Naked viria a nascer.

Nuts in May - Mike Leigh - 1976

I think the important thing is to uh, use your discretion. 
 


Nuts in May fez parte da série Play for Today da BBC, no início do trajecto de Mike Leigh.
Simples e pouco encantador, mas apesar do intenso sabor aos anos 70, não está de forma alguma desatualizado.
Keith e Candice Marie são um casal de totós em férias. Candice Marie é infantil e Keith irrita-se com qualquer contacto humano, intolerável na quebra das regras que o ajudam a lidar com o mundo.
Por muto que nos custe admitir, existe um Keith em todos nós, mas convém esforçarmo-nos por o expulsar.

Eternity and a Day - Theo Angelopoulos - 1998

Tell me...
tomorrow...
how long will it last?



 
Os últimos dias de um homem que procura a reconciliação com o seu passado, o seu egoismo e a sua culpa. 
O último filme da trilogia das fronteiras não consegue estar à altura do seu potencial, tenta forçar a poesia nas palavras e nos paralelos, esquecendo-se de focar na sua essência.
Memórias: segmento no autocarro.
O cinema de Theo Angelopoulos é essencialmente contemplativo mas está repleto de boas ideias.

Landscape in the Mist - Theo Angelopoulos - 1988

I don't know where I'm going. Once I thought I knew.



O capítulo final da trilogia do silêncio é provavelmente o melhor filme de Angelopoulos.
O tradicional "Fim" não aparece nos seus filmes. É verdade que as histórias não têm um fim como nos querem fazer crer, mas penso que a razão está na continuidade da obra do realizador, que constantemente introduz referências entre filmes e desenvolve a sua temática como uma obra eternamente inacabada.
Memórias: The Travelling Players, mão de pedra sem indicador, a paralesia na neve.
Angelopoulos é um mestre da subtileza.


Winter Sleep - Nuri Bilge Ceylan - 2014

Philanthropy isn't tossing a bone to a hungry dog, it's sharing when you are just as hungry.



A história, inspirada por Anton Chekhov, retrata um lado quase medieval da Turquia. Aydın julga-se um senhor feudal, alguém verdadeiramente especial, mas é infantil e tem pouca consciência de si próprio.
Memórias: imagens quase estáticas a lembrar fotografias
Nuri Bilge Ceylan lembra Angelopoulos e Kiarostami, ajudando a personalizar o cinema daquela zona do globo.

Climas - Nuri Bilge Ceylan - 2006

I had such a nice dream.



O tempo e os silêncios funcionam de forma diferente para Ceylan.
A narrativa é escassa, a compreensão das personagens mínima, no entanto tudo faz sentido.
Através das oscilações do clima e dos detalhes do quotidiano reproduzem-se os momentos que definem o fim das nossas relações.
Ceylan é um dos mais brilhantes cineastas da actual geração.

The Town - Nuri Bilge Ceylan - 1997

Just know what you need to live. That’s enough.



O primeiro filme de Ceylan é de certa forma o seu Amarcord.
Muitos dos actores são seus familiares ou amigos e são óbvios alguns traços autobiográficos.
Ceylan ainda está longe do seu melhor mas deixa adivinhar o seu talento em imagens como o carrocel e na força  da sua indentidade, fazendo o filme percorrer as 4 estações.

Ensaio sobre a cegueira - Fernando Meirelles - 2008

Those who agreed, please raise your hand.



Não gosto das alegorias de Saramago, mas esperava mais de Fernando Meirelles.
Filme confuso, forçado, com Meirelles completamente perdido.

Die Hard - John McTiernan - 1988

Was always kinda partial to Roy Rogers actually.



Acção, humor, clichês e um pouco de romance, raramente a formula funcionou tão bem.
Nesta altura ainda não sabia, agora sei o que procuro no cinema, não está aqui.

Titanic - James Cameron - 1997

- Where to, Miss?
- To the stars.



James Cameron até sabe o que faz, e o filme tem naturalmente algumas qualidades.
Cameron quase nos faz ter vontade de viver a aventura de estar num navio a afundar nas águas frias do Atlântico Norte. Um exemplo perfeito do cinema que nada me diz.

I Know Where I’m Going - Michael Powell - 1945

I’m not safe here. I’m on the brink of losing everything I’ve always wanted!



O romance em terras escocesas tem algum mérito mas é a luz e o preto e branco que transportam o filme para o patamar de obra prima.
Powell and Pressburger são concisos e aparentemente filmam de forma simples mas conseguiam pela côr, pela luz, pelo angulo da câmara, pelos pequenos detalhes fazer filmes inexplicavelmente belos.
I Know Where I’m Going é um dos exemplos em que o resultado final supera em muito a ambição dos seus autores.