The Edge of the World - Michael Powell - 1937

This is the story of one of them - and all of them.



O primeiro filme de Michael Powell mostra o seu talento numa história simples mas significativa.
A câmara flui com facilidade mostrando o génio no olhar do realizador.
Gosto particularmente do ondular do bote junto com o acenar da personagem.

Nine 1/2 Weeks - Adrian Lyne - 1986

Every time I see you, you're smiling at me.



As sombras de Grey dos anos 80.
Adrian Lyne é um realizador com algum talento, mas de gosto duvidoso, que representa muito do que se fez naquela década.
Nove semanas e meia é provocador, sobretudo para adolescentes e donas de casa, e transformou-se num filme de culto nos clubes de video da época.
As memórias deixam a ideia de que o filme tem mais sexo do que realmente lá está, esse é o poder do erotismo, apesar da interferência da culinária.

Valerie and Her Week of Wonders - Jaromil Jires - 1970

It's nothing, just a hanged man.



O despertar da sexualidade, os sonhos, medos e fantasias no feminino.
Filme improvável de Jaromil Jires, Alice a entrar na adolescência, onde nem tudo são maravilhas.

The Joke - Jaromil Jires - 1968

A world without forgiveness... is hell.
You live in hell, Ludvik.



The Joke foi o primeiro livro de Kundera.
Jires foi o grande realizador da New Wave checoslovaca.
A sátira ao totalitarismo funciona, mas o mérito é mais de Kundera do que de Jires.

The Name of the Rose - Jean-Jacques Annaud - 1986

Can we laugh at God?



Pelo menos Deus ri de nós.
A adaptação do romance de Umberto Eco permanece como um dos filmes marcantes da minha adolescência.
Sherlock Holmes visita a Idade Média, um tempo cruel e de homens feios.
Annaud não é um artista inspirado e o filme tem dificuldade em sobreviver à evolução do gosto, mas não envergonha a sua fonte.
Laughter kills fear, and without fear there can be no faith because without fear of the Devil, there is no more need of God.

Valley of the Bees - Frantisek Vlácil - 1967

Your spirit will rise above your weakness.



Um dos temas presentes em Marketa Lazarova é a dicotomia entre cristianismo e paganismo.
Valley of the Bees explora as contradições na igreja católica nos tempos medievais.
Apresentando-se como um spin-off de Marketa, é menos poético e sofre com a comparação, mas é raro ver no cinema este universo apresentado de forma tão real e poderosa.

Marketa Lazarova - Frantisek Vlácil - 1967

"Weeping is the gift of relief."



Um poema negro sobre a natureza humana, exposta no universo medieval, onde o amor consegue encontrar caminho entre a crueldade.
A atmosfera criada por Vlácil é exemplar na forma de retratrar a época e a originalidade está bem presente na forma como coloca obstáculos a dificultar a visão do espectador.
" Do not be an animal! " é um apelo condenado à partida.

Faust - Aleksandr Sokurov - 2011

A man sees in the world what he carries in his heart.



Sokurov consegue a perfeição visual mas falta-lhe um argumento mais acutilante para uma história já muito explorada.
Apesar de tudo, existem mulheres pelas quais vale a pena perder a nossa alma.
A lenda de Fausto explica muitas vidas.

Russian Ark - Aleksandr Sokurov - 2002

A pity you're not here with me.
You would understand everything.



In one breath!
Uma grande aventura, um filme numa única cena, sem cortes.
Uma viagem pela história da Rússia no olhar de um narrador fantasma.
Gosto especialmente da mistura de épocas e da sensação de sonho criada pelo travelling interminável.

Broken Blossoms - D.W.Griffith - 1919






















D.W.Griffith foi fundamental na transformação do cinema numa arte narrrativa.
Muito do cinema de Hollywood evoluiu a partir dos seus conceitos e talvez por isso os seus filmes estão bastante datados.
Broken Blossoms é um melodrama neorealista em que o tema da raça está presente mais uma vez.
Uma história simples, que procura simbolismo nos detalhes, com momentos magníficos como o sorriso de Lillian Gish e o "Here's Johnny!" no armário.

Lola Montes - Max Ophuls - 1955

Say yes . . . say yes to everything.



Lola Montes acrescenta a côr e o CinemaScope ao cinema de Ophlus mas deixa-me poucas memórias.
A personagem não me fascina e a mestria do realizador contrasta com a simplicidade do argumento.

Madame de… - Max Ophuls - 1953


The only victory in love is to flee.



O enredo deixa-me frio.
Começa pela vergonhosa tortura pela esperança que se transforma uma vez mais numa banal história de traição.
O que faz de Madame de... um dos grandes filmes de sempre são as coreografias de Max Ophlus com a câmara, a composição perfeita dos frames, a sequência nos espelhos dos salões de baile e as repetições sinfónicas das cenas.
Je vous aime pas... Je ne vous aime pas...

Letter from an Unknown Woman - Max Ophuls - 1948

By the time you read this letter, I may already be dead.



A realidade é muitas vezes desapontante, sobretudo comparada com a nossa capacidade de sonhar.
O amor sem ilusão parece impossível, e momentos fundamentais das nossas vidas são vistos como banais por quem os partilha connosco.

The Wedding March - Erich Von Stroheim - 1928




Von Stroheim sofria de megalomania.
Homem de excessos, nos cenários, no rigor e na duração dos seus filmes, acabou por ver quase toda a sua obra recortada, incompleta e destruída.
O projecto de The Wedding March ficou a meio, mas mesmo assim é um dos grandes filmes românticos do cinema mudo.
Como todos os grandes amores, este amor também está condenado, e no final nem a chuva consegue esconder as lágrimas.

Blind Husbands - Erich Von Stroheim - 1919



O primeiro filme de von Stroheim mostra um mestre no detalhe.
Blind Husbands sofre no entanto de alguma banalidade, apesar do talento do realizador.
Erich von Stroheim, com a sua lente e porte militar, era também um actor fenomenal.

Two Days, One Night - Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne - 2014

- I wish that was me.
- Who?
- That bird singing...



Imagens simples, história simples, emoções simples.
Os irmãos Dardenne conseguem com o seu naturalismo dar uma força inesperada às pequenas tragédias da vida.

La Promesse - Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne - 1996


Zai, zai, zai, zai.



O primeiro êxito dos irmãos Dardenne.
Uma visita ao lado obscuro da Europa com a esperança que as novas gerações não sigam o exemplo das anteriores.
Depois de alguns anos no registo documental, e alguns insucessos, os Dardenne começaram a descobrir o seu caminho.

Ghostbusters - Ivan Reitman - 1984

Who you gonna call?



Lembras-te mana?
Eu sei que sim.

Les Misérables - Tom Hooper - 2012

My heart is stone, and still it trembles.



A força do romance de Victor Hugo e o encanto da música de Schönberg.
Tom Hooper foi audaz, nem sempre foi eficaz mas fez justiça às fontes da obra.
Um regresso ao cinema com os meus pais, um momento único.
To love or have loved, that is enough. There is no other pearl to be found in the dark folds of life.  
Eu sei porque Jean Valjean não levou também os castiçais.

Gone Girl - David Fincher - 2014

What are you thinking? How are you feeling? What have we done to each other? What will we do?



Duas personagens revoltantes, sobretudo a feminina.
David Fincher, sempre competente e sem audácia, mostra-nos a fragilidade da aparente realidade.
You don't know what you've got 'til it's...

Ne le dis à personne - Guillaume Canet - 2006

Tell No One.



Um thriller francês bem conseguido mas pouco original.
Conhecendo o final sobram as imagens de um mergulho no lago.

À Nos Amours - Maurice Pialat - 1983

You think you're in love, but you just want to be loved.



À Nos Amours insere-se no conceito de coming of age.
Maurice Pialat é o pai com quem Suzanne tem uma relação freudiana.
Não é um filme fácil, sexo na adolescência, relações familiares estranhas.
Suzanne é um misto de sensualidade e sorrisos, inocência e promiscuidade.
Não é um filme fácil, porque tenta o nosso desejo, a súbita paixão pelas covinhas do rosto, mas sabemos que Sandrine Bonnaire tinha apenas 15 anos.
Seremos nós capazes de compreender Suzanne?

L'Enfance nue - Maurice Pialat - 1968

Whatever she dreams at night she can see in the day.



Inicialmente, o primeiro filme de Maurice Pialat, parece ser uma tentativa de neo-realismo francês, mas a sua essência é naturalista.
Pialat filma como se ele próprio não interferisse, apenas documentasse. Não julga, não introduz nenhum climax, apenas revela uma realidade.
Uma perspectiva crua da vida de uma criança introduzida no sistema de adopção, em que nada é definitivo, e talvez por isso o pequeno François não consiga ser coerente no seu comportamento.

Perfume: The Story of a Murderer - Tom Tykwer - 2006

For the first time in his life, Grenouille realized that he had no smell of his own. He realized that all his life he had been a nobody to everyone. What he now felt was the fear of his own oblivion. It was as though he did not exist.



O romance de Patrick Süskind colocava o desafio de traduzir odores em imagens.
O desafio era demasiado dificil, apesar da grande produção Tom Tykwer ficou aquém do objectivo.
O Bairro Gótico de Barcelona serve de exemplo do cheiro nauseabundo das cidades europeias do Sec.XVIII, os La Fura dels Baus participam na monumental orgia final e o filme acaba por funcionar pela sua imponência.

Chocolat - Lasse Hallström - 2000

- We are still married, in the eyes of God.
- Then He must be blind.



Joanne Harris é reconhecida por colocar sabores e odores em palavras, como se a sua missão fosse traduzir a forma como essas sensações nos afectam.
Dizem-me que os seus livros são mais negros que este chocolate. O filme fala sobretudo da dificuldade de uma pequena aldeia em aceitar uma mulher moderna e sobre a visão do prazer como pecado.
Gostei de ver o regresso da pequena Ponette.
Apenas tenho pena que Lasse Hallström não tenha conseguido traduzir em imagens o sabor e o cheiro do chocolate.

Ponette - Jacques Doillon - 1996

- You shouldn't be so sad.
- Yes, I should.



Denial, anger, bargaining, depression and acceptance.
Um filme simples sobre um tema complexo. 
Felizmente as crianças conseguem salvar-se através da fantasia.

Les Diaboliques - Henri-Georges Clouzot - 1955

Don’t be diabolical.
Don’t destroy the interest your friends might take in this film.
Don’t tell them what you have seen. 
Thank you on their behalf.



Baseado num romance de Boileau e Narcejac, os mesmos autores que escreveram Vertigo, Les Diaboliques assemelha-se a um filme de Hitchcock.
Clouzot representa a versão francesa do suspense, menos subtil e mais próximo do género de terror.
Véra Clouzot era muito mais do que a namoradinha brazileira de Henri-Georges.

The Wages of Fear - Henri-Georges Clouzot - 1953

You don't know what fear is. But you'll see.



The Wages of Fear facilmente se poderia transformar num filme banal, mas Clouzot é mestre em manter o medo presente.
Mais do que no suspense, a força está na tensão permanente, a morte está sempre por perto.

Cinema Paradiso - Giuseppe Tornatore - 1988

No, Salvatore, there is no future. There is only the past.



A paixão e a nostalgia, pelo cinema e pelas mulheres.
A inocência perdida e amores extinguidos pelo tempo acabam por fazer com que o passado tenha mais relevância que o presente.
Don’t look back. Don’t write. Don’t give in to nostalgia,
Philippe Noiret, mesmo dobrado, revela-se um actor extraordinário, faz mais com um encolher de ombros do que muitos com as palavras de Shakespeare.
Memórias: O final com o filme dos beijos perdidos, que lhe foram roubados na adolescência.
Por muito que se espere à chuva, a vida nem sempre nos recompensa.

Death in Venice - Luchino Visconti - 1971

You must never smile like that. You must never smile like that at anyone.



A homosexualidade de Visconti estará certamente ligada à escolha da adaptação do romance de Thomas Mann, mas Morte em Veneza é sobretudo um filme sobre beleza, juventude e decadência.
Visconti coloca Mahler em imagens, filma ao ritmo da sua sinfonia e essa poesia sobrepõe-se ao efeito da narrativa.

Il Gattopardo - Luchino Visconti - 1963

If we want things to stay as they are, things will have to change.



Adaptação exemplar do romance de Tomasi di Lampedusa sobre a aristocracia siciliana na época do risorgimento. Noi fummo i Gattopardi, i Leoni; quelli che ci sostituiranno saranno gli sciacalletti, le iene; e tutti quanti Gattopardi, sciacalli e pecore, continueremo a crederci il sale della terra.
O filme sofre de demasiada opulência e ambiguidade política, mas a longa cena do baile recompensa no final.
A dança entre Burt Lancaster e Claudia Cardinale, com o seu simbolismo sexual e político, colocam o filme num patamar acima de muitos outros que falaram sobre a queda da aristocracia.