Cat People - Jacques Tourneur - 1942

"I like the dark. It's friendly."

O baixo orçamento obrigou a que os efeitos especiais se resumissem às sombras.
As sombras, o suspense criado para o vazio, a criatividade e o bizarro fizeram de Cat People um sucesso inesperado.
Memórias: Quando o vi pela primeira vez nem sabia muito bem o que era sub-texto sexual, mas agora sei que aí estava uma parte do fascínio que senti.
A série B no seu melhor.

Raging Bull - Martin Scorsese - 1980

- She says he's pretty.
- Yeah, well, you make him ugly.

O universo do boxe é-me indiferente, talvez por isso tenha uma relação fria com Ranging Bull.
Reconheço no entanto que o verdadeiro tema de Ranging Bull é a auto-destruição, o machismo, a violência como forma de relacionamento.
Memórias: De Niro e Joe Pesci, Cavalleria Rusticana
Scorsese é simplesmente brilhante.

Terminator 2: Judgment Day - James Cameron - 1991

"Come with me if you want to live!"

Já acabou?... ainda não... a formula repete-se.
Memórias: Violência e humor
Uma sinfonia de violência tecnicamente irrepreensível.

The Terminator - James Cameron - 1984

"I'll be back!"

Cameron no seu espaço, um filme de acção típico, dos melhores.
Basicamente é um clássico filme de prosseguição, com um oponente aparentemente intransponível, e não me lembro de outro tão bem conseguido.
Memórias: Já acabou?... ainda não... resistiu?... ainda há mais... e agora?
Cameron é mestre no género, do qual nunca deveria ter saído.

Alien IV - Jean-Pierre Jeunet - 1997

- I think you will find that, uh, things have changed a great deal since your time.
- I doubt that.

Um dos méritos da sequela são os realizadores escolhidos.
Jean-Pierre Jeunet foi uma escolha improvável.
Memórias: Visualmente Jeunet nada acrescentou a Alien!!
O fenomenal Alien de Ridley Scott acabou banalizado, a produção parece ter-se sobreposto ao potencial do realizadores, mas nunca me esquecerei da sessão dupla dos dois primeiros filmes na histórica sala de cinema de Vila Nova de Mil Fontes num verão quente dos anos 80.

Aliens III - David Fincher - 1992

"You've been in my life so long, I can't remember anything else."

O primeiro filme de David Fincher é uma desilusão, perdeu-se o legado de Ridley Scott, nada acrescentou e pouca expectativa gerou para um realizador que apesar de muitas falhas tem mais mérito do que aqui demonstrou.
Memórias: Desilusão (segundo parece também para Fincher)
As sequelas sofrem do eterno mal do 'going nowhere'.

Aliens II - James Cameron - 1986

- Hey Vasquez, have you ever been mistaken for a man?
- No. Have you?

A passagem de testemunho de Ridley Scott para James Cameron, acabou por trazer um Alien diferente, perdeu-se o suspense, o terror e ganhou a acção.
Um degrau abaixo do primeiro.
Memórias: muita adrenalina
Não sou adepto de James Cameron, Aliens é o seu melhor momento.

Alien I - Ridley Scott - 1979

"This is Ripley, last survivor of the Nostromo, signing off."

Ridley Scott é o melhor realizador de ficção cientifica.
No entanto, parece querer apenas utilizar o género para fazer um filme de terror, como Alien ou um filme noir, como Blade Runner. Não explora a vertente existencialista ou futurista do género.
Memórias: O ritmo, o silêncio, o escuro, as figuras desenhadas por Giger
Alien, o grande thriller do espaço.

Il Caimano - Nanni Moretti - 2006

"E' inutile fare un film sulla storia di Berlusconi perché tutti sanno già tutto e poi lui ha già vinto."

Cinema ou politica? Moretti quer que seja politica.
Cinema propaganda não é necessariamente mau, mas Moretti falha porque a realidade é tão evidente que Il Caimano nada acrescenta, apenas propaga a mensagem. Moretti sabe disso.
Memórias: Saudades do cinema italiano
Nanni Moretti tem muito talento, pena que muitas vezes se preocupe demasiado com a mensagem e pouco com a forma.

Celebrity - Woody Allen - 1998

"I've become the person I've always hated, but I'm happier."

Woody Allen tenta explorar um nicho da sua temática, a fama e a falta de carácter.
Muitos bons momentos, como habitual, mas fica aquém do seu melhor na acutilância da sátira.
Memórias: Kenneth Branagh wooing Winona Ryder
Celebrity dilui-se na obra de Woody Allen sem deixar marca.

It Happened One Night - Frank Capra - 1934

- Your ego is absolutely colossal.
- Yeah, yeah, not bad, how's yours?

Uma comédia romântica, ou melhor uma 'screwball comedy' igual a muitas outra que se faziam... e que ainda se repetem.
Memórias: 39$60
Frank Capra não tinha chama ou arte, era um mero operário qualificado.

Zéro de Conduite - Jean Vigo - 1933



A primeira sensação que Zéro de Conduite me deu é que a coragem tem estado afastada do cinema.
É verdade que muito do que se vê é pouco trabalhado, mas a audácia do realismo poético de Jean Vigo é ainda hoje assombrosa.
Surpreendente e provocador.
Memórias: Auto-correcção do desenho, bonecos da audiência
A vida de Jean Vigo foi curta, mas só por este filme valeu a pena.

La Chienne - Jean Renoir - 1931

"Kiss me better than that."

Renoir ainda a dar os primeiro passos.
Inseguro no ritmo, diálogos pobres e uns quantos momentos onde se descobre o seu talento.
Memórias: Epílogo
Uma hora de tédio e último acto exemplar

The Motorcycles Diares - Walter Salles - 2004

"What we had in common - our restlessness, our impassioned spirits, and a love for the open road."

Lamentavelmente é um filme sobre Che.
A tentação de politizar os factos, a procura por um momento de revelação espiritual destrói o filme.
Poderia ter sido um belíssimo filme sobre a open road, sobre a descoberta do mundo, o conhecimento dos povos. 
Poderia ser mas não é, os biopics são perigosos.
Memórias: The Open Road....
Che é demasiado complexo para deixar a sua história a meio.

Topsy-Turvy - Mike Leigh - 1999

"Laughter, tears, curtain."

Todos temos direitos aos nossos fetiches, mas não podemos esperar que sejam universais.
Tenho uma relação especial com Mike Leigh, por isso tenho dificuldade em lhe perdoar um filme tão inócuo.
Memórias: As faces e as barbas
É mau? Não, mas é dispensável.

An Affair to Remember - Leo McCarey - 1957

"There must be something between us, even if it's only an ocean."

O conceito "encontra-mo-nos daqui a 6 meses no Empire State Building" é mágico, mas mal dirigido por Leo McCarey, um dos maus exemplos de realizador de estúdio que abundam em Hollywood.
Os momentos musicais do coro infantil são ridículos e retiram emoção.
A primeira parte é bastante agradável, mas o que faz de An Affair to Remember um belo filme é o diálogo final, magistralmente construído.
Memórias: Diálogo Final
Deixa boas recordações mas poderia ter sido muito melhor.

Vampyr - Carl Theodor Dreyer - 1932


Dreyer é um dos melhores de sempre, o fluir da câmara é magistral, a ânsia de experimentar imensa.
Lamento que Dreyer não tenha diversificado mais a sua obra pois o seu potencial era fantástico.
A densidade psicológica que Dreyer pretende captar nunca será popular.
Em Vampyr apenas o texto me parece dispensável e até prejudicial ao ritmo e intensidade do filme.
Memórias: as sombras, o funeral invertido, o grão das imagens
Vampyr, a perspectiva surrealista do medo. Um filme único.

Still Life - Zhang Ke Jia - 2006

- You're a nostalgist.
- We can't forget who we are.

Metáfora das transformações da sociedade chinesa. Belíssimo.
Memórias: O movimento da paisagem enquanto as personagens ficam paradas na imagem
Zhang Ke Jia, mostra-nos a face do povo chinês que fingimos não existir.

Flags of Our Fathers - Clint Eastwood - 2006

"No sense being a hero if you don't look like one."

Sem The Letters from Iwo Jima seria um péssimo momento de auto-indulgência.
Pouco cinema, nenhuma originalidade.
Memórias: Cold as stones
Suponho que Eastwood apenas fez o Flags para complementar politicamente as Letters, fez mal.

Letters from Iwo Jima - Clint Eastwood - 2006

"We can die here, or we can continue fighting. Which would better serve the emperor?"

A guerra vista pelo lado oposto. Eastwood teve coragem.
Não tenho dúvidas sobre as melhores intenções de Eastwood e mesmo se nem sempre escapa aos estereótipos pelo menos tentou ver o que estava do outro lado do espelho.
Memórias: o absurdo da guerra e da morte
A guerra sem heróis.

The Elephant Man - David Lynch - 1980

"Am I a good man? Or a bad man?"

Belíssima fotografia a preto e branco.
Lynch sem ambiguidade, a mostrar que também poderia ser magistral noutro registo.
Memórias: A visita à casa de Treves, Psalm 23
Lynch transforma um suposto filme de terror numa homenagem à compaixão.

Requiem for a Dream - Darren Aronofsky - 2000

"I know it's pretty baby, but I didn't take it out for air."

O tema é recorrente, mas nem Trainspotting consegue atingir-nos da mesma forma.
Requiem for a Dream é belo, completo e cinematograficamente complexo.
Requinte técnico, fade into white, cut, cut, som... Poderia ser exagerado, mas não quando todo o virtuosismo tem a sua justificação.
O paralelismo entre mãe e filho funciona surpreendentemente bem.
Memórias: Requiem for a Dream
Bela introdução a Aronofsky.

Freaks - Tod Browning - 1932

"I'm not going to have my wife laying in bed half the day with one of your hangovers."

Divido-me entre o sentimento de homenagem e a exploração da imagem dos actores.
Não encontro resposta, mas prefiro acreditar na intenção de alertar o público.
Memórias: Não engana, só poderia ser dos 30's
Não é um filme, é uma provocação.

J'accuse - Abel Gance - 1938

A man like you, so unhappy. I don't understand.

J'accuse é um belíssimo manifesto pacifista, o sentido de oportunidade não poderia ser melhor.
Não vi a versão original de 1919, mas esta é impressionante.
Memórias: Victor Francen, a morte
A prova que o cinema tem pouquíssimo poder de intervenção.

Only angels have wings - Howard Hawks - 1939

- So you're still carrying a torch for her?
- Gotta light?

Todas as linhas de diálogo são imprescindíveis.
Personagens, inesquecíveis, o ritmo, prefeito.
Memórias: Coragem, amizade e mulheres. The Kid.
Destes, já não se fazem. O melhor de Hawks.

The Thief of Bagdad - Raoul Walsh - 1924


Douglas Fairbanks parece um dançarino, um mimo que personifica o actor herói do cinema mudo.
Memórias: tapete, os gestos de princesa, Douglas Fairbanks
Um filme de aventuras banal, mas com o encanto e a inocência de quem dá os primeiros passos.

Hugo - Martin Scorsese - 2011

We could get into trouble.
That's how you know it's an adventure.

Scorsese fugiu das ruas sujas de Nova Iorque e redescobriu-se na paixão pela história do cinema.
Mostrou um pouco do que se poderá vir a fazer com 3D, mas a verdade é que pouco acrescentou ao filme.
Hugo mostra o futuro através duma belíssima homenagem ao passado.
Memórias: A memória do cinema, o comboio dos Lumière em 3D
Fiz as pazes com Scorsese.

Big Fish - Tim Burton - 2003

"I caught an uncatchable fish."

Visualmente espantoso, como só os sonhos podem ser.
Tim Burton personifica a fantasia do cinema.
Memórias: Para que estragar uma boa história com a verdade?
O melhor de Tim Burton.

Exotica - Atom Egoyan - 1994

"All those questions, all that wondering that... It's just, you know, you... They got their whole lives ahead of them, you know? And you've wasted half of yours away. Damn. What is it?"

Promete sensualidade, mas quem vence é a angústia.
Erotismo e luto dificilmente se misturam.
Construção complexa, lenta o suficiente para criar ansiedade.
Reconheço a qualidade mas não deixa de ser desconfortável.
Memórias: Everybody Knows, as perguntas de Eric
Atom Egoyan deixa-me sempre confuso.

Snatch - Guy Ritchie - 2000

Anything to declare?
Yeah. Don't go to England.

Claramente uma cópia de Tarantino, bem executada, mas sem sentido.
Memórias: 3 carros e um pacote de leite
Guy Ritchie prometeu, mas não cumpriu.

Scoop - Woody Allen - 2006

"Well did you accomplish anything besides a possible pregnancy?"

Woody e Scarlett fazem um par invulgar. 
Scarlett impressiona pela naturalidade com que se expõe à comédia e pela simplicidade com que nos mostra a sua beleza.
Memórias: Contra-mão
Raramente um filme de Woody Allen me deixou memórias tão vagas.