The Night of the Hunter - Charles Laughton - 1955

There are things you do hate, Lord. Perfume-smellin' things, lacy things, things with curly hair. 


















As imagens a preto-e-branco continuam a assombrar-me.
The Night of the Hunter cresce na memória devido à excelente fotografia, à crueldade extrema (ex. a forma como se comporta na noite de núpcias) e à luz que lembra o expressionismo alemão dos anos 20.
Memórias: o corpo sob a água no modelo T, a silhueta do cavalo ao longo do horizonte no crepúsculo 
Charles Laughton era um actor excepcional e apesar de apenas ter esta oportunidade para realizar, aproveitou como poucos.

Winter Light - Ingmar Bergman - 1962

You made me so very strong in both body and soul, but you never give me a task worthy of my strength.




















O segundo filme da triologia do Silêncio de Deus mostra Bergman no seu melhor.
A luz e as palavras definem o cinema enquanto arte, e as perguntas permanecem eternamente.
Memórias: saturação da luz, o sarcasmo recordado em The White Ribbon.
Winter Light é um dos meus Bergman favoritos.


Simon of the Desert - Luis Buñuel - 1965

- What's this dance called?
- "Radioactive Flesh." It's the latest - and the last!


.

Em Simon, Buñuel vai directamente à paródia sobre religião, no seu estilo provocador limita-se a fazer perguntas em tom humorístico para que cada um de nós encontre as suas respostas.
Aproveita esteticamente o céu e o espaço aberto, apesar de deixar uma sensação de excesso de improviso.

Los Olvidados - Luis Buñuel - 1950

I hope they'll kill every one of them before they born!

  

Um encontro entre o neo-realismo italiano e o surrealismo de Buñuel.
Memórias: um ovo atirado à camara

Land Without Bread - Luis Buñuel - 1932
















Las Hurdes, um mundo perdido onde o surrealismo de Buñuel mistura perigosamente documentário e o exagero da realidade.
Mais importante do que tentar adivinhar a realidade por trás das imagens é homenagiar a provocação, território natural de Buñuel.

The White Ribbon - Michael Haneke - 2009

I gave God a chance to kill me. 

















A origem do mal.
Crueldade, hierarquia, punição, vergonha, mecanismos pelos quais a doença se propaga de geração em geração.

Branded to Kill - Seijun Suzuki - 1967






 













Era suposto ser apenas mais um filme de série B (do género yakuza, máfia japonesa) mas Suzuki resolveu fazer uma sátira ao género, recorrendo ao absurdo e a uma estética mais avant garde.
Excomungado por fazer "movies that make no sense and no money" mas que o transformariam num ídolo pop.

Blind Beast - Yasuzo Masumura - 1969

The world of touch...


Podia ser uma versão de In the Realm of the Senses, em que o foco está no terror e não no sexo.
Tem o encanto de um série B mas com uma interessante capacidade de provocar.
Memórias: as lágrimas no final
O final é absolutamente asfixiante.

Ai No Corrida - Nagisa Oshima - 1976

A girl like you can stab a man's heart without a knife, huh?


Contrariamente ao habitual, no Império dos Sentidos o sexo não se destina a  atrair audiências, embora acabe por o fazer.
Oshima trabalha bem a côr sobretudo, mas o seu maior mérito está em saber navegar no fio da navalha conseguindo escapar à vulgaridade e simultaneamente dar justiça à entrega dos actores (que fazem muito mais do que apenas sexo).
"Sada and Kichi, just two of us together" - A obsessão por sexo, pelo amor, por alguém ou pelo que fôr não tem um final feliz.

The Whole Family Works - Mikio Naruse - 1939

















 



Seria injusto avaliar Naruse por este trabalho no início da sua carreira.
A preocupação social supera o cinema.

An Autumn Afternoon (O Gosto do Saké) - Yasujiro Ozu - 1962















 



A utilização da côr na composição das imagens mostra um autor estéticamente mais culto do que a maioria dos realizadores.
Os temas habituais, como a familia e os desenvolvimentos da sociedade japonesa, conseguem sobreviver durante mais de 30 anos e nunca se esgotam. 
Memórias: Electrodomésticos 
O último filme de Ozu.

Tokyo Story - Yasujiro Ozu - 1953

Isn't life disappointing?


A camara, numa posição mais baixa do que o habitual, raramente faz um movimento, o argumento é simples e no entatanto Viagem a Tóquio é unanimemente considerado um dos grandes filmes de sempre.
As relações entre pais e filhos, a transformação social, o confronto de valores são temas universais e intemporais. Ozu mais uma vez recorre à subtileza, esconde em cada imagem e em cada frase um simbolismo, troca o ritmo das imagens pela profundidade da composição.
Noriko revela-se no sorriso de Setsuko Hara e representa a esperança de que de alguma forma viver ainda vale a pena, que nem tudo é falso e que o egoismo pode ser derrotado.

An Inn in Tokyo - Yasujiro Ozu - 1935

Tomorrow we’ll make it... but they never do it.

 
Ozu em 1935 ainda evita o sonoro mas antecipa o neo-realismo europeu do pós-guerra.
Admirável a  subtileza com que Ozu transmite a mensagem, com as fábricas ao fundo, como uma miragem, as linhas de electricidade e telégrafo que aprisionam na estrada os personagens perdidos num novo mundo onde não têm lugar.
Memórias: uma refeição imaginária.

I Was Born, But - Yasujiro Ozu - 1932
















 




Ozu, ainda em silêncio, transforma uma pequena comédia familiar numa reflexão sobre os paralelos entre a vida adulta e a infância. A infância nunca é tão simples como os adultos querem recordar, a luta pelo poder e a necessidade de hierarquias começa bem cedo.
None of us asked to be born, but… we were, and now we have to deal with it.
Memórias: a roupa estendida
Talvez o melhor do cinema mudo de Ozu, simultaneamente cineasta e sociólogo.

Sisters of the Gion - Kenji Mizoguchi - 1936











Mizoguchi parece-me até aqui um Ozu de segunda (o que não é totalmente desprestigiante), com a simplicidade (one scene/ one shot) e a tentativa de captar a essência da sociedade japonesa do seu tempo através das condicionantes que a fazem sofrer mutações. Mizoguchi não consegue no entanto ter a mesma força estética nem a subtileza/complexidade que fazem de Ozu a figura principal da sua geração.
O universo das geishas é dificil de enter no ocidente, Mizoguchi antecipa o fim da sua era e conta parte da sua tragédia.

Rashômon - Akira Kurosawa - 1950

It's human to lie. Most of the time we can't even be honest with ourselves.


Apesar de estruturalmente exemplar e original já não consegue ter o mesmo impacto do que quando surgiu nas salas de cinema.
Os flashbacks, o narrador não confiável, a mesma histórias contada por diversas personagens, a construção das cenas em pares e triangulos.
Filme exemplar para a sala de aula, mas baseando-se apenas na estrutura perdeu muito do seu valor com o tempo.

The Boy with Green Hair - Joseph Losey - 1948

I want my hair back the way it was! 



Curioso como uma simples mensagem pacifista pôde ser tão polémica.
Memórias: Nature Boy e eu
A força estética de um simples cabelo verde.

The River - Frank Borzage - 1929

There is a river called life, its source a hidden fountain. The sea is its goal. Upon it sail the rafts of human destinies.



Um dos mais eróticos filmes do cinema mudo.
Memórias: Corvo. Mary Duncan
Borzage é provavelmente o mais romântico dos realizadores da sua geração.

La Traversée de Paris - Claude Autant-Lara - 1956

A pig across Paris



Comédia desinspirada a que o talento de Gabin e Bourvil não resistem.
Memórias: umas sombras
No mínimo não resistiu bem ao passar do tempo.

Le Boucher - Claude Chabrol - 1970

If you never make love, you go crazy.



Chabrol por vezes parece amador, muitas cenas desnecessárias e pouco mais do que a boa utilização da banda sonora.
Le Boucher esconde envolta na simplicidade das imagens e do enredo uma interessante meditação sobre o impacto que podemos ter na vida dos outros e na pouca consciência que temos disso mesmo.

The Big Heat - Fritz Lang - 1953


Hey, I like this. Early nothing!



Lang trabalha o suspense a lembrar Hitchcock, dá-nos a reposta mas demora a apresentá-la no écran. Só a sua mestria consegue retirar tanto cinema de um argumento previsivél.
Memórias: O casal perfeito
O Fritz Lang americano nunca atinge o nível dos anos do cinema mudo alemão.

The Best Years of Our Lives - William Wyler - 1946

They couldn't train him to put his arms around his girl, or to stroke her hair.



As dificuldades no regresso dos veteranos seriam recorrentes em sucessivas guerras e em inúmeros filmes. The Best Years of Our Lives aborda o tema de forma exemplar.
Não sou adepto de William Wyler, realizador discreto, com planos longos em que tenta deixar a história respirar. Não é o meu cinema.

Man of the West - Anthony Mann - 1958

My shoes? Oh, that makes this trip worthwhile. You're the first man who's looked at that part of me since I was 14 years old.



O último western the Mann, o homem que introduziu 'the darkness of Noir' no género.
Visualmente aproxima-se dos westerns dos anos 60 e 70, com uma luz e côr pouco habituais até então.
Por vezes Mann parece desapaixonado pelo género, mas a introdução da ambiguidade psicológica mudou irreversivelmente os westerns.

Rio Grande - John Ford -1950

Yankee justice! Arresting that nice young man and charging him with manslaughter, while they promote arsonists to be Sergeant Majors!



Rio Grande acrescenta muito pouco à Triologia da Cavalaria, mas sobrevive com a mestria de Ford na composição dos planos, na atenção aos gestos e na companhia de Wayne e O'Hara.
Memórias: Maureen O’Hara’s faces
Ford apesar de todos os seus defeitos tem uma presença fundamental nas minhas memórias de infância.

She Wore a Yellow Ribbon - John Ford -1949

Nice girl... reminds me of you.



Excelente fotografia, perfeito em todos os detalhes mas com o passar dos anos parece cada vez mais infantil. 

O encantamento da autoridade e a emoção fácil.
Memórias: Monument Valley
O único colorido da Triologia da Cavalaria e provavelmente o mais icónico.
Lovely... no bom e mau sentido. 

Fort Apache - John Ford -1948

I'm not asking your advice, Captain. I'm merely stating.



O primeiro filme da chamada Triologia da Cavalaria.
Ford tira proveito da paisagem e das personagens lineares. 

Heroismo, humor e romance.
Foi um dos filmes que me fez gostar e odiar John Ford.

The Tin Star - Anthony Mann - 1957

- How come they picked you?
- I'm only temporary.
- You're more temporary than you think.

 
A banalidade do argumento não consegue dar dimensão às personagens e Mann passa despercebido.
Talvez o western menos conseguido de Mann.

The Man from Laramie - Anthony Mann - 1955

- You're just a hard, scheming old woman, aren't you?
- Ugly, too.

 
A última colaboração de Mann e Stewart é uma demonstração de maturidade, juntando aos elementos anteriores maior dimensão visual.
Não havia nada mais a acrescentar ao género.

The Naked Spur - Anthony Mann - 1953

- Did you ever marry one of 'em?
- Never had to with my good looks!



Um western psicológico, maduro e negro.
Apesar de não ter o mesmo fulgor visual, Naked Spur destaca-se  com a complexidade vs a unidimensionalidade
das personagens de John Ford.
O melhor da dupla Stewart-Mann.

Winchester ’73 - Anthony Mann - 1950

- I already know all about Waco Johnnie Dean, the fastest gun in Texas.
- Texas? Lady, why limit me?



A história acompanha uma arma que transita de mãos com facilidade, como motivo para revelar os instintos de quem a possui ou deseja possuir.
A primeira colaboração entre Stewart e Mann, a única B/W, introduz uma formula de sucesso que se desenvolveria ao longo dos anos 50.