Singin’ in the Rain - Stanley Donen, Gene Kelly - 1952

I’m laughing at clouds
So dark up above



Se algum momento no cinema me poderia converter à dança seria este dilúvio.
Singin’ in the Rain é o grande musical do cinema.

Cabaret - Bob Fosse - 1972

I'm going to be a great film star! That is, if booze and sex don't get me first.



Cabaret é um musical negro, distante do romantismo dos musicais dos anos 50.
As personagens estão decadentes, a era dos cabarets de Berlim estava a acabar e novos e terriveis tempos se adivinhavam.
Liza Minnelli tem o seu grande momento e Bob Fosse é um homem essencial nos musicais desde a década de 50, como actor, coreógrafo e realizador.
O melhor musical dos últimos 50 anos.

Moulin Rouge! - Baz Luhrmann - 2001

The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return.



A música é essencial para o cinema de Baz Luhrmann pelo que não se estranha um musical no seu percurso.
A selecção de temas é exemplar e a ligação com o enredo dá-lhe um cariz humoristico que resulta.
Não gosto do visual pop e kitsch mas admiro a identidade forte do realizador.

William Shakespeare’s Romeo + Juliet - Baz Luhrmann - 1996

I am Fortune's fool!



Lembro-me de pensar, logo nos primeiros instantes, que a coisa não ía correr bem, só quando soam as primeiras notas de Talk Show Host resolvi dar uma oportunidade ao filme.
Shakespeare num universo kitsch, camisas havaianas, mas que consegue captar a essência de Romeu e Julieta.
Memórias: D'Artagnan no urinol, praia e exílio Mad Max, Exit Music (for a film)
Não gosto de muitas coisas no filme mas era óbvio que Baz Luhrmann tinha uma visão clara do cinema que queria fazer.

The Great Gatsby - Baz Luhrmann - 2013

I knew it was a great mistake for a man like me to fall in love...



F. Scott Fitzgerald, os Roaring Twenties e Baz Luhrmann.
Tenho dificuldade em absorver o excesso da côr, gosto da mistura de épocas, do uso da música e, comparando com os filmes anteriores, um maior equilibrio do realizador.
O universo de Gatsby casa bem com a exuberância de Luhrmann. Não é fácil traduzir colocar no écran a loucura dos anos 20, Luhrmann fez um bom trabalho.

Yi Yi (A One and a Two) - Edward Yang - 2000

Why is the world so different from what we thought it was?



“Daddy, can we only know half the truth? I can only see what’s in front and not what’s behind.” Yi Yi é um filme de perguntas.
Um filme sobre a família, sobre as gerações, a repetição da vida, o ciclo que se completa.
Quando não se gera família, o ciclo acaba em nós, e tudo o que vivemos se perde.
"I want to tell him that I feel I am old, too."
Memórias: Semáforo

Anna Karenina - Joe Wright - 2012

Happy families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own way.



O romance de Tolstoi, considerando um dos melhores de sempre, está desatualizado. Hoje em dia o adultério sofre do mal contrário, é aceite com normalidade pela sociedade, sem hipocrisia mas com narcisismo.
Tolstoi constroi um retrato detalhado da sociedade russa, que o filme não ambiciona.
O princípio de Anna Karenina tem várias aplicações: "Today we were unlucky, but remember we only have to be lucky once. You will have to be lucky always." - IRA
Joe Wright é um simplificador, gosta sobretudo de cenários, não tem nada de novo para dizer ou mostrar.
They look happier than I've ever been. Is it living simply that I'm looking for?

The Unbearable Lightness of Being - Philip Kaufman - 1987

Life is very heavy to me, but it is so light to you.



O cinema e a literatura são duas formas de arte distintas. Quem tenta adaptar um livro para o cinema normalmente cria um filme apático. Felizmente Kaufman tenta apenas procurar inspiração no romance, apesar de incompreendido pelo próprio Kundera. Mesmo assim o filme fica aquém da grandeza do livro.
The Unbearable Lightness of Being é uma obra existencialista, filosófica, o filme foca-se apenas na diferente forma como as personagens encaram a vida. A leveza pode retirar sentido à vida, o peso do comprometimento muitas vezes impede-nos de viver esse percurso. As duas mulheres assumem os extremos enquanto o homem oscila entre as duas. A primavera de Praga e o regresso à Checoslováquia comunista são uma metáfora perfeita.
- Are you afraid of women, Doctor?
- Of course.

Henry & June - Philip Kaufman - 1990

I wanted Dostoyevsky!



Sexo e sensualidade nem sempre se conjugam.
Como muitos, procurei o lado errado da história em 1990, o filme que vi era outro.
Kaufman conhece os segredos: uma bicicleta a apontar para um momento, um espelho, um aquário, Henry Miller como Indiana Jones, os dedos numa guitarra.
As personagens são fascinantes no filme e na vida real.
Henry: I'm ready to celebrate my failure.
June: I've done the vilest things - the foulest things - but I've done them... superbly.
Anaïs Nin: I wept because from now on...I would weep less.
 
Memórias: St. James Infirmary Blues
Henry & June é um filme sobre libertadores, reveladores de um universo que tem diculdade em respirar.

Florbela - Vicente Alves do Ó - 2012

Não me perguntes o que faria por ti.
Seria uma resposta sem fim.



A vida de Florbela deveria ter tido Paris como palco.
Vicente Alves do Ó tem vontade de fazer cinema a sério, é competente mas falta-lhe algum talento, em muitos momentos parece que não tem nada para dizer, e o filme aguarda ansiosamente que algo aconteça.
A banda sonora, a montagem e alguns actores não ajudam a encontrar a poesia que se procura.
Memórias: As heras de Sintra
Florbela não morreu de tristeza, morreu porque o mundo à sua volta tinha paredes demasiado estreitas.

An Italian Straw Hat - René Clair - 1927





















Uma desilusão, depois das promessas de Entr’Acte esperava algo mais arrojado.
Mais engenhoso do que cómico.

Entr’Acte - René Clair - 1924












 



O primeiro filme de René Clair foi concebido como um interlúdio de um bailado.
Inserido no dadaísmo, é imaginativo, com a música de Erik Satie a desempenhar um papel fundamental.
Memórias: Câmara-lenta, inversões, a bailarina, funeral aos saltos em câmara lenta, o rasgar do Fin.

Priest - Antonia Bird - 1994

You little devil!



Podia ser o Crime do Padre Amaro em versão homossexual. 
Cinema activista faz sentido mas ter algo para dizer não é suficiente para ser arte.

El crimen del Padre Amaro - Carlos Carrera - 2002

No nos dejes caer en la tentacion...



A melhor versão do romance de Eça de Queiroz é .... mexicana.
O carácter do padre é exposto com doses equilibradas de subtileza e impacto.
Longe de ser genial, é no entanto capaz de transportar a essência do romance para o cinema.

O Crime do Padre Amaro - Carlos Coelho da Silva - 2005

O único inferno que existe é a solidão.



Cinema em formato televisivo, com o único objectivo de explorar a componente sexual da obra.
Para um imagem mais actual copia-se elementos da versão mexicana.
O único momento de cinema são os padres de batina num momento Reservoir Dogs.

Primer - Shane Carruth - 2004

- You know what they do with engineers when they turn forty?
- They take them out and shoot them.



Mais uma história de viagens no tempo. O diálogo científico é curioso mas inconsequente, gosto sobtretudo da ideia de que é possível fazer um filme low-cost com personalidade.

Shane - George Stevens - 1953

We'd all be much better off if there wasn't a single gun left in this valley - including yours.



Shane! Shane! Come back! - O western visto pelos olhos de uma criança.
Não acho que Shane seja um grande filme, mas é mais complexo do que parece inicialmente.

A Place in the Sun - George Stevens - 1951

Love me for the time I have left, then forget me.



Um melodrama old school, exagerado, lento e previsível (com o objectivo de criar tensão), que não envelheceu bem mas que ainda tem alguma chama.
George Stevens mudou com a WWII, tenho fascínio pelo dilema moral de um homem naturalmente bom que foi vencido pela vida e por si próprio. O contraste entre dois mundos, o sonho americano, esse universo pouco me diz.
As cenas de tribunal são aborrecidas e nada acrescentam, tradicional nesta época.
Memórias: o desmaio de Elizabeth Taylor, fechar a porta como se isso evitasse atentação, a imagem prévia do tribunal.
Romance, Montgomery Clift e Elizabeth Tayler, cinema maior que a vida, apela à memória mas perdeu encanto.

My Winnipeg - Guy Maddin - 2007

Here, even sleepwalkers are hard to find.



My Winnipeg é um mockumentary sobre a cidade natal de Maddin e uma auto-biografia semi-ficcionada.
Memórias: Demolição, Hoquei e o cão a passear ao som kitsch dos The Bells.
Guy Maddin é um dos realizadores mais criativos dos últimos anos, com uma estrutura narrativa mais consistente podia fazer algo extraordinário.

The Heart of the World - Guy Maddin - 2000





















Guy Maddin é um impressionista deste tempo.
Recria as técnicas do cinema mudo, da montagem soviética ao expressionismo alemão, e comete um acto de loucura, que tanta falta nos tem feito.

Taste of Cherry - Abbas Kiarostami - 1997

You want to give up the taste of cherries?



O Sabor da Cereja é um filme minimalista sobre a morte e sobre a vida.
Kiarostami filmou os actores separadamente, era ele estava sentado no carro, improvisando conversas com actores não profissionais. Curiosamente nehum dos interlocutores de Mr.Badii é iraniano, um militar curdo (demasiado inseguro e centrado em si próprio para ouvir), um seminarista afegão (cheio de certezas mas sem compreender) e um taxidermista turco (que compreende, que sabe como superar e apesar disso aceita a missão).
No final Kiarostami lembra-nos que estamos num filme, e despedimo-nos ao som de Louis Armstrong com St. James Infirmary.
Suicídio não é apenas uma palavra no dicionário.

Close-Up - Abbas Kiarostami - 1990

Can you make a film about my suffering?



Um filme na fronteira do documentário, que fala sobre a paixão do cinema e de um personagem que a ficção não conseguiria inventar.
Close-Up tem uma magia única, surpreendentemente complexo, uma surpresa, adivinho, para o próprio Kiarostami.

Lucia y el Sexo - Julio Medem - 2001

- You have to choose. Wild sex with a stranger, or wild sex with someone who's crazy about you, and who you love? Go ahead. Be frank.
- With you.



O enredo salta entre o presente e o passado, entre a ficção da escrita de Lorenzo e a sua realidade, e tudo se funde na integridade das personagens. 
A confusão traz as verdades escondidas à superficie e tudo ganha sentido no final, ambíguo mas conclusivo.
Memórias: Um abraço no balanço das ondas.
Belíssimo filme.

Lovers of the Arctic Circle - Julio Medem - 1998

I also want to be in love.



Um filme para amantes e poetas, para quem quer acreditar que amor pode não acabar.
Medem não é genial, mas faz um filme verdadeiro com um final apropiado.

World on a Wire - Rainer Werner Fassbinder - 1973

Wo ist Güenther Lause?



World on a Wire é o Matrix dos anos 70, com menos acção e mais complexo.
Fassbinder rodeia-nos de espelhos e de vidros, de múltiplas homenagens a outros filmes, e cria um mundo estranho e fascinante como o seu criador.
Um dos melhores filmes de Fassbinder.

The American Soldier - Rainer Werner Fassbinder - 1970

W as in war, A as in Alamo, L as in Lenin, S as in science fiction, C as in crime, and H as in Hell.



The American Soldier não é mais do que a versão de Alphaville de Godard.
Fassbinder junta-lhe maior componente sexual e uma cena final que atesta o seu génio.

The Seashell and the Clergyman - Germaine Dulac - 1928

This film is so obscure as to have no apparent meaning. If there is a meaning, it is doubtless objectionable.



The Seashell and the Clergyman acompanha as alucinações eróticas de um clérigo. 
O surrealismo no cinema surgiu aqui, antes de Buñuel e Dali.
David Lynch é o herdeiro legítimo deste cinema.
Memórias: banda sonora (Silent Orchestra?)
Não podemos confiar nas imagens de Germaine Dulac, mas podemos confiar no seu talento.

The Smiling Madame Beudet - Germaine Dulac - 1923

How could I live without you?



Um dos primeiros filmes feministas. 
Germaine Dulac é uma das mais brilhantes realizadoras do cinema mudo, definida como impressionista, juntamente com Abel Gance e Epstein por exemplo.
Em Madame Beudet com sobreposição de imagens, iluminação com um foco de luz dominante, a imagem dentro do circulo, Dulac tenta colocar nas imagens as emoções da personagem.
A ousadia permanece actual.

Jacob's Ladder - Adrian Lyne - 1990

Dream on!



Nenhum dos outros sucessos populares de Adrian Lyne se tranformou num filme de culto como Jacob's Ladder.
Alguma originalidade, um argumento com potencial e a inspiração do fotógrafo Joel-Peter Witkin resultam num filme que inspirou muito mau cinema que se tem feito mas que tem alguma qualidade.
Falta a Lyne o gosto pelo surrealismo e a ambição artística.

Lolita - Adrian Lyne - 1997

We had been everywhere. We had really seen nothing.



- I feel like we're grown-ups.
- Me, too.

Não é possível adaptar o romance de Nabokov para o cinema sem a provocação que ele implica. Lolita deve questionar-nos se nos conseguimos ver na pele do Prof. Humbert, se conseguimos sentir desejo por uma pré-adolescente. Lyne utiliza a sexualidade muito mais explicitamente que Kubrick e consegue ser mais provocador.
Adrian Lyne, o homem de Proposta Indecente, Atração Fatal e Nove semanas e meia, não parecia capaz de se aproximar tanto de Kubrick, Lolita é de longe o seu melhor filme. No entanto, nehuma das versão me satisfaz inteiramente, talvez a Lolita no cinema tenha que se afastar mais do livro que lhe dá origem, ou então aquilo que vejo em Lolita não corresponda à Lolita de Nabokov.