Marnie - Alfred Hitchcock - 1964

"Of course, I'm a liar and a cheat and a thief, but I am decent."
Marnie poderia ser um filme sobre perturbações psiquiátricas, e se assim fosse era um filme falhado pela superficialidade com que aborda o tema.
Marnie, com sempre em Hitchcock, tira proveito de um crime para fazer cinema, criar suspense, humor e romance.
Marnie tem todos os méritos de Hitchcock, mas surge num período em que Hitchcock já tinha posto todas as cartas na mesa.
Memórias: a mala, o cofre e a senhora da limpeza.
Marca o inicio do fim de Hitchcock (as expectativas já eram demasiado elevadas) mas Marnie é um belíssimo filme.

The Last Emperor - Bernardo Bertolucci - 1987

“if you cannot say what you mean, your majesty, you will never mean what you say, and a gentleman should always mean what he says.”
Um dos últimos grandes épicos, onde as grandes massas e os majestosos cenários se sobrepõem a uma ideia de cinema.
Pu-Yi é um mero espectador da sua vida, incapaz de controlar os acontecimentos à sua volta, sem poder e sem liberdade.
Memórias: Tentar resolver o enigma de Pu-Yi
Bertolucci, e o seu gosto pelos visuais coloridos, serve um género que não é o seu.
É competente, mas sem chama.

Empire of the Sun - Steven Spielberg - 1987

"Learned a new word today."
Gosto do cinema que lida com a realidade. Spielberg lida com sonhos e fantasias.
Ainda sonho ser Jim, viver toda uma vida antes da puberdade, ainda sonho aprender a sofrer e sorrir como Jim.
Memórias: Jim
Não me recordo de nada melhor que Spielberg tenha feito.

Deconstructing Harry - Woddy Allen - 1997

"All people know the same truth. Our lives consist of how we chose to distort it"
Todos os filmes de Woody Allen são supostamente autobiográficos, mas é em Deconstucting Harry que o realizador o assume na sua plenitude, numa rara demonstração de auto conhecimento e reconhecimento.
Memórias: "I'm a guy who can't function well in life but can in art."
Ficção ou realidade?

Repulsion - Roman Polanski - 1965

"Well, next time you forget, maybe you'll let me know"
Loucura ou pesadelo, Repulsion é um dos mais brilhantes filmes de Polanki.
O terror de Polanski não me cativa, mas é seguramente um dos mestres do género.
Repusion gera desconforto num ritmo lento e consegue ser fiel ao sentimento que representa.
Memórias: Deneuve, os sons banais transformam-se no retrato aterrador dos medos de Carol
Os pesadelos nem sempre geram boas memórias.

Downfall - Oliver Hirschbiegel - 2004

"You must be on stage when the curtain falls"

Retrato impressionante dos últimos dias de Hitler.
O poder da realidade subrepõe-se a qualquer ideia de cinema através do trabalho fabuloso de Hirschbiegel e dos actores.
Downfall mostra que os valores morais não são universais, que o Bem e o Mal são sempre uma questão de perspectiva. As personagens são demoníacas mas simultaneamente humanas, oscilam entre acções atroses e afabilidade no quotidiano.
Memórias: Bruno Ganz e a coragem de Hirschbiegel
O cinema desce à realidade de um dos momentos mais marcantes da História.
Um dos grandes momentos de cinema da década.

Planet of the Apes - Franklin J.Schaffner - 1968

"So I left, because there was no one to hold me there."

Colocando as pretensões metafísicas à parte, e recuando à idade da inocência, Planet of the Apes foi um dos primeiros filmes que perduraram na minha memória.
A passagem do tempo, a extinção da humanidade e a aventura no desconhecido marcaram-me.
Os macacos sempre me fascinaram pelo seu poder e pelas as suas faces malignas mas agora são apenas a marca de infantilidade que impede que considere um grande filme, e inúteis os remakes.
Memórias: O início na nave e o final na praia.
Seminal mas imaturo.

Anything else - Woody Allen - 2003

[last lines]
Jerry Falk: I was just saying how strange life is, how it's full of inexplicable mystery.
Cab Driver: Well, you know, it's like anything else.

Jason Biggs e Christina Ricci, um par invulgar, constroem mais um belíssimo exemplo da obra fenomenal de Woody Allen.
Memórias: I broke up with this girl, and they put me with a psychiatrist who said, "Why did you get so depressed, and do all those things you did?" I said, "I wanted this girl and she left me." And he said, "Well, we have to look into that." And I said, "There's nothing to look into. I wanted her and she left me." And he said, "Well, why are you feeling so intense?" And I said, "Cause I want the girl." And he said, "What's underneath it?" And I said, "Nothing." He said, "I'll have to give you medication." I said, "I don't want medication. I want the girl." And he said, "We have to work this through." So, at that point, I took a fire extinguisher from the casement and struck him across the back of his neck.
Um Allen menos luminoso por vezes, mas com muitos momentos brilhantes.

Bride of Frankenstein - James Whale - 1935


"Here, have a cigar... they're my only weakness!"  
 

















Bride é mais filme que o Frankenstein inicial. 
Memórias: Boris Karloff, frascos, Dr.Pretorius e as suas fraquezas.
O entusiasmo para procurar The son of Frankenstein não é muito, mas certamente lá irei um dia.

Frankenstein - James Whale - 1931

"You have created a monster, and it will destroy you!"

Frankenstein não me fascina, mas a figura criada por Boris Karloff é assombrosa.

Memórias: Boris Karloff
James Whale tem o mérito de transformar em definitivas as suas versões do romance de Mary Shelley.

Frankenstein - Kenneth Branagh - 1994

"It's alive. It's alive!"

Fazer um remake justifica-se quando existe algo de novo, não é o caso.
Memórias: Helena nunca foi tão bela
Kenneth Branagh é melhor que isto, está fora do seu território.

La Bocca del Lupo - Pietro Marcello - 2009

"I luoghi che attraversiamo sono archeologia di una memoria."
Pietro Marcello tem claras dificuldades em encontrar uma estrutura narrativa, o ritmo das imagens não acompanha as emoções.
Memórias: a contra-capa de Génova, o sonho de Enzo e Mary
Teria curiosidade de ver Marcello em ficção, La Bocca del Lupo vale pela história de Enzo e Mary mas também pela arte do realizador.

Il Passaggio della Linea - Pietro Marcello - 2007

"La cosa più interessante, al mondo, è l'essere vivi."
 

Os documentários de Pietro Marcello revelam um autor focado na imagem (magistral a filmar a noite) e no som.
Memórias: a janela no horizonte, o sol a nascer ao fundo do comboio, o velho vagabundo
Il Passaggio della Linea é um documentário intimista, próximo do neo-realismo italiano, actualizado e prometedor.

Sleeper - Woody Allen - 1973

- It's hard to believe that you haven't had sex for 200 years.
- 204, if you count my marriage.

A afirmação de Allen enquanto realizador/actor cómico, e o seu primeiro filme memorável.
Memória: Homenagem a Duck Soup
Talvez inconsequente, mas definitivamente cómico.

Bananas - Woody Allen - 1971

- How am I immature?
- Well, emotionally, sexually, and intellectually.
- Yeah, but what other ways?

Bananas é uma das Screwball Comedies que marcaram a obra inicial de Woody Allen, faltava-lhe ainda polir o seu universo e construir argumentos a partir dos gags que criava.
A escolha musical é irritante, mas já aparecem os psiquiatras, os judeus e vários outros temas que se iriam desenvolver ao longo da sua obra.
Memórias: Homenagem a Potemkin, Silvester Stalone
Tem piada, mas falta-lhe tudo mais.

Le Tunnel sous le Manche - Georges Méliès - 1907


Méliès, o Júlio Verne do cinema.
Memórias: o universo colorido dos 'efeitos especiais'
Méliès não evolui muito desde Le voyage dans la lune mas continua a encantar.

Le Mélomane - Georges Méliès - 1903


Apenas 3 minutos de pura magia.
Memórias: A cabeça de Méliès
É necessário sonhar.

The Great Train Robbery - Edwin S. Porter - 1903


O início da descoberta da estrutura do cinema, a edição, scene vs shot e muito mais.
Ainda mantem a câmara parada mas é sem dúvida um marco na evolução da estrutura narrativa da 7ª arte.
Memórias: As quedas artificiais e o célebre tiro final
O fascínio de se assistir a uma descoberta.

The treasure of the Sierra Madre - John Huston - 1948

"Conscience. What a thing. If you believe you got a conscience it'll pester you to death. But if you don't believe you got one, what could it do t'ya? Makes me sick, all this talking and fussing about nonsense."

Belíssima fotografia a preto e branco, três personagens construídas simbolicamente e magistralmente intrepretadas.
O Bem acaba por vencer o Mal num golpe de sorte, esvaziando todo o dramatismo.
Memórias:Dobbs, Curtin e Howard, sequência "Can you help a fellow American down on his luck"
É impossível não relembrar Greed e lamentar que Huston não tenha criado um final poderoso e significativo como von Stroheim.

Le Voyage à travers l'Impossible - Georges Méliès - 1904


Mais uma viagem de Méliès, depois da Lua, o Sol.
Belissimamente colorido.
Memórias: planos cortados do comboio e do submarino.
Mais um truque de magia de Méliès.

Bringing up Baby - Howard Hawks - 1938

- Oh David, what have you done?
- Just name anything, and I've done it.

Não sou adepto das 'screwball comedies', parcem estar datadas e apenas consigo esboçar um sorriso.
Grant e Hepburn são um excelente par, mas ambos estão longe do melhor.
Memórias: Walter Catlett
Dispensável.

Girl With a Pearl Earring - Peter Webber - 2003

"You looked inside me..."

Um filme sobre um quadro de Vermeer.
A fotografia é assombrosa mas nada mais justifica o filme.
Memórias: A luz
A humildade consegue disfarçar o vazio de um mistério que não existe.
Agradável.

JFK - Oliver Stone - 1991

"Let justice be done though the heavens fall."

O filme é complexo, o trabalho de edição espantoso, tecnicamente irrepreensível, e um deserto de cinema.
Talvez exagere, mas se lhe retirar-mos a carga emocional trazida pelos 'factos verídicos' ficamos com um thriller complexo mas inconclusivo, frio e exagerado.
O cinema fica aquém da realidade, é um filme falhado.
Memórias. Joe Pesci
Não gosto de Oliver Stone e não quero saber quem assassinou JFK.

Irreversible - Gaspar Noé - 2002

"You want me to say it? Time destroys everything."

Um filme chocante, mas também muito mais do que isso.
A sequência inversa faz todo o sentido, um filme com final feliz, mas ao contrário.
Irreversible não é consensual, muitos não conseguem distinguir o prazer do entretenimento da beleza da 'revelação' que a arte proporciona.
Irreversible é desagradável, incómodo, revelador e artístico.
Memórias: A violação e o final.
Se pudéssemos voltar atrás?

North by Northwest - Alfred Hitchcock - 1959

"I've got a job, a secretary, a mother, two ex-wives and several bartenders that depend upon me."

Não há muito mais a dizer sobre Hitchcock, North by Northwest é fabuloso mesmo sem ser um dos meus favoritos.
Cary Grant também é magistral, mesmo com o fato empoeirado o cabelo nunca sai do sitio.
Memórias: O avião, a beleza de Eve Marie Saint
Nunca gostei da perseguição final no Mount Rushmore.

Pickpocket - Robert Bresson - 1959

“What a strange path I have had to tread to reach you at last.”

O argumento, uma boa versão de Crime e Castigo, poderia ter originado algo mais poderoso.
A narração é muitas vezes um artificio perigoso, Pickpocket devia mostrar mais e explicar menos.
Bresson adopta um ritmo lento e não consegue criar densidade, parece querer que o espectador coloque as suas próprias emoções nos olhos vazios das personagens.
Memórias: um homem solitário, à deriva, e uma musa inspiradora
Introdução pouco aliciante para Bresson, apesar de lhe reconhecer personalidade forte enquanto realizador.

Lady Chatterley - Pascale Ferran - 2006

"We want to make the world dance to our tune, thats all. But the worlds got a tune of its own, much older than ours."

Um belíssimo e sensual filme sobre uma paixão sem sentido.
Memórias: Sexo à sombra da árvore
A essência do romance de D.H. Lawrence permanece confinada ao seu tempo, já não faz sentido.

39 steps - Alfred Hitchcock - 1935

"What are The 39 Steps?"

Um dos momentos menos inspirados de Hitchcock e o argumento, recheado de incongruências, não ajuda nada para salvar 39 steps.
Memórias: Algemas, os habituais zooms
Hitchcock tem muito muito melhor.

Stagecoach - John Ford - 1939

"Well, there are some things a man just can't run away from."

Stagecoach foi original no seu tempo, embora agora nada pareça sair dos habituais clichés dos westerns.
O que me faz não gostar de Stagecoach é sobretudo a unidimensionalidade das personagens e do argumento, bem ao gosto do tradicional cinema de Hollywood.
Memórias: Paisagem
Ford conduz com mestria o ritmo do filme e dá-nos imagens fantásticas do oeste, mas não chega para salvar o filme.